Ele é presidente da maior Colônia de Pesca do Espírito Santo, a Z-5, que abrange a Grande Vitória e se estende ao Rio Doce, alcançando Aimorés, em Minas Gerais. Pescador como o pai, um português que veio jovem para o Brasil e dedicou-se inteiramente a pesca. Pai de dois filhos homens, não quer nenhum deles na pesca, pois está convencido de que, se não houver um freio na pesca predatória, ela não dura mais 20 anos. Ele gostaria muito que os seus filhos fossem pescadores, mais seria um pai imprudente se os guiasse para o mar no meio desse risco de a pesca acabar.
Nome desse pescador pessimista: Álvaro Martins da Silva, 52 anos de idade, 30 de pesca, pois começou a pescar com 13 anos na companhia do pai, Belmiro Rodrigues da Silva. Álvaro está no terceiro mandato à frente da colônia pelejando para dar consciência ao pescador, mas o vendo vítima da tecnologia de barcos estrangeiros - superbendotados - na costa capixaba arrastando cardumes inteiros e destruindo os pesqueiros.
A entrevista de Álvaro a Século Diário mostra o Espírito Santo padecendo por causa dessa sofisticada pesca e caminhando para que os seus mares fiquem desertos de peixe. Álvaro aponta uma série de negligências e cumplicidade em favor desse quadro terminal da pesca capixaba. É bom ouvi-lo.
Século Diário: - Vamos começar com a pesca em alto mar. Qual a diferença de ontem para hoje?
Foto: Apoena
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Álvaro: - Ontem era uma fartura, hoje mal dá para pagar a despesa. Tem muitos barcos por aí de fora, cada vez tem mais barcos. Quer dizer, a nossa dificuldade é muito grande.
-Mais barcos de onde?
- Vamos supor: na nossa costa aqui, tem barco de tudo quanto é lugar. Até barco do Japão tem na nossa costa. São mais modernos os que eles têm e eles pegam tudo, cação, dourado. Hoje em dia quem está mais avançado ainda consegue pegar alguma coisa, mas o pescador meio antigo, que está meio atrasado, não consegue pegar mais nada.
- E parece que a história está indo cada vez mais longe, né?
- Até pesca de camarão os barcos de fora também fazem. Barcos de 200 metros de fundura e já vão pegando o camarão. Esse camarão que vinha até a costa, ele não consegue vir mais porque eles pegam esse camarão lá antes. Entendeu?
- A que distância daqui, só pra ter uma idéia?
- Longe e em grandes profundidades. Estão pegando camarão a 60 metros de profundidade. Não deixam ele chegar mais na costa.
- A meio caminho de Vitória a Trindade.
- De Vitória a Trindade dá uns cinco dias de barco. Até esse lugar dessa pesca de camarão dá dois dias, 48 horas.
- Como é essa pesca do camarão?
- É uma rede grande que vem atrás do navio com duas traineiras. Vai arrastando tudo no fundo. Tem até corrente por baixo da rede. E mata todo tipo de peixe, filhotes, vai tudo junto, não fica nada. É um arraso.
- Esses barcos vêm de que países?
- Vêm do Japão, da França. Só a gente que não tem nada de fiscalização. É proibido pescar na costa, tem um monte de lei, mas cadê a fiscalização? O Ibama, por exemplo, não tem nenhum barco para ir atrás de ninguém. Tem um barquinho para pegar os pescadores pobres aqui da região. Aí eles vão, pegam, mostram na televisão, mas quem eles têm que pegar, eles não pegam. A pesca do cação, por exemplo.
- Agora, o Japão vem muito atrás de barbatana de tubarão, não é?
- É, a verdade é que o Espírito Santo é o lugar que dá mais cação atualmente, mas eles já estão acabando com ele por aqui também. Não tem muito cação ultimamente porque vem barco de fora e leva. Eles pegam o cação, tiram a barbatana do cação e soltam ele. O cação, sem barbatana, naturalmente vai morrer. Por causa de quê? Porque a barbatana hoje é vendida a R$ 600 o quilo. Só a barbatana. Quer dizer, um cação que é vendido a R$ 3 o quilo.
- Mais de US$ 100 o quilo.
- Isso, mais de US$ 100 o quilo. Quase US$ 250. Isso a barbatana molhada, porque quando ela está seca, sai até por R$ 800. Porque quando ela seca, ela fica mais leve. Então, quer dizer, o cara pega o cação a R$ 3 o quilo, ele vai querer o peixe pra quê? Ele joga o cação fora e aí esse é mais um cação morto.. E isso ninguém vê. Cadê às autoridades ambientais? Estão acabando com o cação, que é um dos peixes mais perfeitos, topo de cadeia alimentar, uma espécie que atravessou séculos nos mares. Imaginem que hoje ele pode acabar pela falta de combate à pesca predadora.
- Como é que os nossos barcos conseguem competir com eles? Eu estou falando também dos nossos barcos de alto mar.
- Ah, é difícil. O Espírito Santo tem poucos barcos que conseguem competir com esses barcos de fora. Cada vez eles vão evoluindo mais porque eles são grandes empresários. No Espírito Santo não tem mais barco para competir com eles, só em Santa Catarina, que tem grandes empresários, que lá tem barcos modernos, inclusive o pessoal de Santa Catarina quando não está pescando lá, eles vêm cavar aqui. O camarão, por exemplo, o camarão não dá mais e eles e aí vêm buscar aqui, na costa do Espírito Santo.Aliás, vale a advertência: acabaram com o camarão na costa brasileira toda. Camarão só na costa capixaba. Aí eles vêm tudo para cá. É preciso tomar cuidado para não se extinguir também com o camarão. Quando eu falo que ele desapareceu na costa brasileira, falo em quantidades que permitam a pesca.
- Agora, além dos barcos de outros países, também tem os barcos de Santa Catarina?
- Tem, tem. Os barcos de Santa Catarina todos, praticamente. Quando tem uma pesca lá... lá tem o peixe-sapo, que dá muito lá, e quando eles proíbem o peixe-sapo lá, eles vêm pra cá pegar camarão aqui.
- O peixe-sapo é o quê?
- É um peixe caríssimo, muito gostoso, tipo exportação. É um peixe que parece com o badejo. Mas ele não tinha valor nenhum até começar a exportar. Agora ele começou a ser exportado e é vendido a R$ 20 o quilo.
- Dos cardumes que o nosso pescador estava acostumado a pescar, o que é que está desaparecendo da costa?
- O cardume de chicharro, o xaréu, cardume de enchova, de peixe-galo. Peixes que vivem boiados, eles ficam mais... Esses que vêm de Santa Catarina acabam com tudo aqui.
- O que é esse peixe boiado que você fala?
- Os peixes boiados, você vê um cardume de longe, porque eles ficam com medo, eles não ficam no fundo. No fundo fica o badejo, que você só vê no fundo, o peroá, também só dá lá no fundão. Agora o chicharro, esses peixes assim, ficam na meia água, eles ficam por ali, e de vez em quando eles ficam com medo. No tanto que tiver, já dá até para ver o peixe. O ruim é que eles não pegam só o peixe grande, eles pegam tudo, o chicharro de um quilo e o de dez gramas. Limpam tudo. Levam tudo. Isso também é proibido. O Ibama diz que é proibido, mas também não faz nada. Não tem estrutura. Se tivesse apoio pra pegar eles, mas eles não têm barco. Essa semana mesmo eles estavam reclamando que o orçamento deles do ano passado foi de R$ 2,3 milhões e esse ano eles estão com R$ 700 mil. Quer dizer, fazer o quê com isso? É pra acabar tudo mesmo.
- Agora falando em cardume, eu estou dizendo o seguinte: houve grande redução dos cardumes? Porque você está falando desses peixes que bóiam e vão embora porque sabem que a barra está pesada. Porque a gente sabe que os cardumes são renováveis, mas estão pescando mais do que a renovação.
Foto: Apoena
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- É porque é muita traineira, mas o negócio é o seguinte: se fala muito no mar, mas vai chegar uma hora que não vai ter mais mar pra peixe. Do jeito que eles estão pescando, não vai ter mais mar para os cardumes. Na nossa costa já acabou. Você olha e dificilmente vê um cardume boiando. Primeiro se via passando de um lado pro outro, mas agora, se você vê, é de duas em duas horas. É porque está acabando mesmo. Se você conseguisse um cardume onde pegasse os peixes maiores e os filhotes que estão criando soltassem, mas pegam tudo. Os filhotes vão todos juntos. De 50 a um quilo, não deixa nada. Quer dizer, um dia vai acabar. Não vai ter peixe sobre peixe, só em cativeiro. Se o Ibama não tomar uma providência, é pra pouco tempo.
- Agora me diz o seguinte: vamos sair de alto mar e vamos pra costa. E os pescadores daqui, nós estamos numa região de pescadores aqui na Praia do Suá, o que eles pescavam e o que eles não pescam mais?
- Hoje tem uma reclamação danada porque primeiro a gente saía com o barco e voltava com 12 ou 13 toneladas de peixe. Hoje, se trouxer cinco toneladas já é uma festa. Cada vez o peixe está acabando mais. Por mais que se ande. Ali pro lado do Abrolho, que era o reabastecedor, uma fartura de peixe... o criadouro... agora o pessoal que pesca ali volta sem nada. Agora o pessoal sai pra pescar daqui e vai lá pra Trindade. São cinco dias pra ir e mais cinco pra voltar. É um dos poucos lugares aqui no Espírito Santo que se pesca ainda.