Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Maria Tomba Homem, beleza negra de quase dois metros de altura:
sensualidade e coragem para homem nenhum botar defeito

Com ela não tinha valentão que se mantivesse de pé



Rogério Medeiros

Maria Tomba Homem teve um imerecido fim de vida: como se fosse uma dessas velhas abandonadas num canto de uma casa, esperando a morte por derrota. Morreu nos anos 90, sem idade definida, pois detestava falar de quantos anos ainda tinha. Viveu essa etapa final agarrada a lembranças do passado, da época em que foi a temida mulher da roda de valentões do conturbado Mercado da Vila Rubim, onde imperou ao lado de João Ramiro, negro como ela, grandão como ela, bravo como ela, vistoso como ela... e bom de briga como ela.

Foto: Rogério Medeiros
  
Maria, que foi uma bela mulher nos seus tempos áureos, está aqui retratada em foto que a mostra já na velhice. Para quem a conheceu na juventude, é difícil ligá-la à imagem que colhi dela quando escrevi esta reportagem.

Voltando ao casal Maria-João: parecia até que eles tinham sido feitos um para o outro. Mas na verdade eles eram apenas bons e ternos amigos. Vieram juntos de Cachoeiro de Itapemirim para tomar conta do baixo meretrício de Vitória. Eles eram também o tesão da área. Quem não gostaria de trepar com aquela fêmea negra reluzente, quase dois metros de altura, corpo bem cheio, braços fortes, dentes alvos, lábios carnudos, sensuais. Ramiro era isso tudo de Maria em forma de homem. Era o rei dos bordéis e rufião das melhores mulheres do lugar.

Não iam além da porta...


Já Maria não era mulher disponível aos homens freqüentadores do seu bordel, que ficava na Ilha do Príncipe, com boa disponibilidade de negras e mulatas. Era a própria garantia contra badernas e arruaças, que ocorriam, nesse tempo, com relativa freqüência, nas casas de tolerância, como a sua. Ela pegava os arruaceiros e tombava com eles no chão do seu salão, daí a razão do Tomba Homem do seu nome. E polícia não costumava passar da sua porta, a não ser personagens como o comissário Gentil Flores da Purificação, negro também como ela e Ramiro e que freqüentava o lugar como amigo.

Estamos falando ainda dos anos 50, quando Maria ainda não havia engordado muito. O seu bordel era do inicio dos anos 40 e chegou aos 70. Teve 27 anos de vida ativa. Em função dele, ela foi moradora pioneira da Ilha do Princípe, junto com o amigo comissário Gentil Flores da Purificação. Essa história, de ser boa de porrada e principalmente de tombo, fez dela uma mulher respeitada como um imbatível lutador. Um direto dela seria tão potente como um cruzado de Muhammad Ali ou George Foreman. Já o amigo João Ramiro não era de botar a mão em ninguém. O negócio dele era no punhal.

Quando ele espetava alguém - matou alguns com o seu punhal -, Maria o escondia no seu bordel, onde a polícia jamais entrava. E quando Maria estava sob a ameaça da polícia (nesse período eram comuns ordens de governadores para fechar o baixo meretrício), ele ia para o bordel da Maria garantir o seu funcionamento. Ficou célebre o episódio em que ele e Maria seguraram a patrulha comandada pelo temido cabo (PM) Irênio.

O cabo chegou na porta do bordel e gritou da rua: "Maria! Recebi ordem do chefe de Polícia (era Paulo Vellozo) para fechar também a sua casa. Já fechei as outras e deixei a sua por último, por consideração. Quero a sua compreensão". João Ramiro saiu de dentro do bordel para parlamentar com Irênio e tentar convencê-lo a não invadi-lo. Maria reagiria, avisou ao militar. Mas foi em vão a advertência. O cabo disse que ia cumprir, mesmo a contragosto, a ordem do chefe de Polícia.

Segurou no muque...

Deu ordens aos seus soldados para a invasão e encontraram Maria de cara. Ela pegou os homens de porrada. Era um porrada de um lado, um tombo do outro. Com pouco tempo, ela tinha jogada uns três no chão. A patrulha não passou da porta. A mulher, como haveria de dizer depois o cabo ao chefe de Polícia, estava "uma besta fera". Era matá-la ou sair, e logo também haviam surgido outros valentões, como João Ramiro, para dar uma mão.

Apesar da fama de não voltar de mão abanando de uma missão, o cabo Irênio, dessa vez, não deu conta dela. Chamou os seus soldados e bateu em retirada. Esse episódio correu rua e tomou conta das rodas do Mercado da Vila Rubim, tornando Maria mais temida ainda. Mas Irênio nunca responsabilizou a Maria pelo seu vexame. Para ele, tinha sido armação de João Ramiro. Durante algum tempo, ficou a expectativa de que, quando os dois se encontrassem, um deles iria para debaixo da terra.

Não demorou tempo para o cabo Irênio tomar um tiro na cabeça e cair morto em pleno dia, no meio do povo, num sábado alvoroçado de compras, na Vila Rubim. Desceu foi soldado para levar João Ramiro preso. Homem de Bereco (que foi um dos mais temidos pistoleiros da história da violência do Espírito Santo), era o seu motorista. Ele apressou-se em se apresentar na chefatura de Polícia. Levado ao gabinete do chefe de Polícia, Paulo Vellozo, ele foi entrando e dizendo que não era coisa dele. "Se fosse coisa minha, doutor, esse homem tava com um buraco e tanto de meu punhal. Negócio de revólver não é comigo".

Sindicato do crime...

Logo o crime do cabo Irênio seria desvendado. Havia sido uma briga dentro do Sindicato do Crime (uma organização composta por criminosos que teve seu apogeu no Estado também dos anos 50 aos 70) entre os grupos do major Orlando Cavalcante e do tenente José Scárdua, que culminou, na sequência, também com a morte dos dois. Pistoleiros do tenente Scárdua matariam o major Orlando no balneário de Nova Almeida, na Serra, e pistoleiros do major Orlando, já sob o comando do fazendeiro Renato Paiva, matariam o tenente Scárdua dentro de uma barbearia, num sábado, também, em plena Vila Rubim.

Foto: Rogério Medeiros
  
Assim, a região em que imperavam Maria e Ramiro viria a ser palco do fim de uma das maiores lendas da violência no Espírito Santo, que foi o tenente José Scárdua. Mas nesse tempo os dois já haviam se retirado da região. Maria havia casado com um portuário (José Pinto) e foi morar com ele no bairro de Ataíde, em Vila Velha, onde criou quatro filhos. Já João Ramiro havia se recolhido à casa de parentes no bairro de São Pedro. Estavam relativamente envelhecidos. Estive com os dois nessa época. João mais alquebrado, doente, havia tido um derrame. Já Maria encontrei de perna quebrada, bem gorda, mas ainda tentando passar uma sensualidade que era a sua marca. Ela sempre teve muito medo de ser tomada como "mulher-macho".

"Fui boa de jogar homem no chão, mas gostava mesmo de levar homem pra cama", foi logo me dizendo nesse encontro que tivemos, já em meados dos anos 70, quando eu ainda trabalhava em "A Gazeta". Inclusive, nesse encontro com ela, tive a primazia de fazer um meio nu dela. "Você será a única pessoa a ver os meus peitos à luz do dia. " Tirou a blusa e mostrou os peitos. Cliquei Maria sem sutiã. Aliás, eu já a conhecia do seu bordel, onde estive algumas vezes. Isto por volta dos anos 50. E até um dia, quando, num contraluz, vi suas vigorosas coxas e dei uma cantada nela. Escapei de levar um belo tombo.


Leia mais:
  • continuação >>



  •