"Menino! Não se faça de besta. Eu não sou mulher para criança. Vai se criar e arranjar menina do seu tope e da sua laia". Nesse meu último encontro com ela, recordei essa mal sucedida cantada. Mas ela não lembrou ou preferiu inclui-lo no meio de outras cantadas mal dadas. "Muitos tentaram e levaram um fora também". E ela se aproveitou da ocasião para falar de sua grande paixão. Para minha surpresa, ela me disse que a sua grande paixão foi um homem de pouco mais de um metro e meio. Um tal de Baianinho. Segundo descreveu, um tipo meio mulato, magrinho, mas, como ela disse, bom de cama e com um "documento grandão" que a enchia de prazer.
Paixão sofrida...
"Mas você nem imagina como sofri na mãos desse homem. Me rastejei. Enchia ele de presente. Mas ele era durão comigo. Eu dizia pra ele: 'Baianinho, tem um monte de homem atrás de mim e eu só tenho olhos pra você. Quis ter filho com ele, e ele não quis. Foi uma paixão louca. Eu só pensava na cama com ele. Ninguém me deu mais prazer do que ele. Um belo dia ele desapareceu de vez, fiquei louca. Danei a procurar por ele. Nunca mais encontrei. Sonhava com ele todas as noites. Um dia me dei no sonho no seu enterro. Foi quando comecei a sossegar. Convencido de que havia perdido ele para o mundo".
Ela disse que nesse período bebeu muito, mas contou com a solidariedade de João Ramiro. "Ele ficava do meu lado vendo eu me embriagar e não falava nada. Depois me levava para a cama e acendia uma baita de uma vela para a imagem de São Jorge. Eu acordava ainda com o cheiro forte da vela. Comecei a perceber que ele andava muito triste e um dia perguntei a ele por que tanta tristeza. Ele respondeu que era por minha causa. Então disse que ia acabar com a bebida. Parei de beber na hora e voltei a tocar minha vida como antes. Mas não tinha olhos para mais homem nenhum. O tempo passou e um dia resolvi casar para ter filhos e vim parar aqui neste lugar..."
Foto: Rogério Medeiros
|
|
| |
Ela também me explicou que o seu bordel não tinha, por essa época (já atravessando os anos 70), mais condições de ficar na Ilha do Príncipe. A ilha tinha virado um bairro familiar e não pegava bem continuar com ele por lá. "Quando eu cheguei aqui, era a minha casa e a casa do comissário Gentil e depois do comissário Campos. Assim ficou muito tempo. Depois começaram a chegar umas mulheres que passaram a lavar roupa para as casas na cidade. Aí foi chegando gente, mais gente, tudo família. Nunca implicaram comigo. Até me respeitavam, ajudei muita gente. Dei muito dinheiro para comprar caderno dos filhos delas. Gostavam de mim. Mas veio o dia em que a dona Flora, uma senhora muito respeitada na ilha, chegou para me dizer que a minha casa estava incomodando. Pois amanheciam bêbados mexendo com as filhas delas. Aí vi que estava na hora de sair. E sai".
Bateu em retirada...
"Nessa época, tinha um moço muito apaixonado por mim. Eu não era apaixonada por ele. Ele era até bem apanhado. Mas, como eu disse antes, só gostei mesmo de um homem. Do Baianinho, que, como disse há pouco também, nunca mais pus os olhos nele, mas deixou o cheiro dele em mim. Ele tinha mania de usar Água de Colônia e eu peguei o costume com ele de usar Água de Colônia. É lembrança dele. A vida com o meu marido durou pouco. O bastante para ele me dar quatro filhos. Mas paixão mesmo foi só o Baianinho. Quer saber de uma coisa? O povo dizia que nunca houve homem que me desse porrada. Você não ouve falar disso? Pois o Baianinho me enchia de porrada".
Agora, ter deixado a Ilha do Príncipe para ir morar no Ataíde, em Vila Velha, foi a mesma coisa que o mundo acabar para ela. Ninguém a conhecia direito no lugar. "O povo não sabe quem eu sou. Sou mais uma velha que se encostou por aqui. Deixei minha vida na Vila Rubim e na Ilha. Lá passei uma vida. Conhecia todo mundo. Fiz amigos, compadres, ajudei os outros, fui ajudada também. Principalmente no inicio. Conheci meus homens. Mas vou te dizer uma coisa. Essa mulher aqui só foi pra cama por gozo... Nunca fui de ser cantada. Até porque os homens tinham medo de me cantar. Homem ia pra cama que eu cantava. Agora paixão grande foi mesmo o Baianinho. Que homem!"
O companheiro se apagando...
Nesse nosso encontro, tomei a iniciativa de contar o estado de saúde lastimável em que encontrei João Ramiro. Ela, que estava há muito tempo sem vê-lo, baixou a cabeça na hora. Deu um tempo. Fez o nome do padre e disse que ia rezar para São Jorge protegê-lo e não deixá-lo morrer com dor. "Só não choro porque não sou mulher de muito choro. Chorar mesmo, chorei muito por Baianinho. Mas dói no fundo do meu coração saber que o meu grande amigo está chegando ao fim. Eu também acho que a minha hora está por perto..."
Enquanto me penitenciava comigo mesmo pela imprudência de lhe revelar o estado terminal do seu melhor amigo, ela me surpreendeu, de repente, risonha falando da visita que havia recebido de uma de suas meninas do seu antigo bordel e que proporcionou ótimas recordações. "Não é que apareceu uma delas aqui. Já com uma idade, mas ainda meio bonitinha. Não vou nem dizer o nome pra não atrapalhar a sua vida. Mas ela veio aqui pra me agradecer ajuda no seu casamento com uma antiga paixão. Ela agora já era até avó. Mais do que eu, que sou só mãe".
"Virgem! Foi como se eu estivesse voltando para dentro da minha casa na Ilha (ela nunca chamava de bordel ou mesmo casa da vida). Meu deu alegria. Ela me contou que as mulheres todas baixavam os olhos quando eu passava e achavam que os homens desejavam era eu e não elas. Ela me contou que a sua grande paixão foi o João Ramiro. Mas o João tinha muito cuidado com a minha casa e levava ela para fazer amor no seu barraco. Mas que as paixões dele não duravam muito. E ela, como as outras, também pensavam que eu era a mulher dele. O que nunca fui. Fui criada pela mãe dele em Cachoeiro. Nós nos gostávamos como irmãos, pois saímos juntos de Cachoeiro e não voltamos mais e não sei nem como eles se acabaram por lá".
Fenômen o bantu...
Sobre o fenômeno Maria Tomba Homem e João Ramiro, o principal historiador dos negros do Estado, Maciel de Aguiar, costuma dizer que a filosofia dos negros bantus, dos quais procedem certamente os dois, encara os serem humanos como força e não como seres. E que tudo da filosofia africana é da raiz, embora no Brasil já haja regiões de negros se desenraizando.
Quase 20 anos depois desse encontro, eu haveria de ter notícia de sua morte. Na ocasião, fui até onde o seu corpo estava sendo velado, de máquina fotográfica, como de hábito, e com a intenção de fazer a sua foto dentro do caixão. Mas voltei da porta, certo de que uma mulher como Maria Tomba Homem não é para se documentar em estado de derrota. Seria um sacrilégio. Preferi guardar a imagem dela como a da musa da valentia da raça negra capixaba e deixei o local na doce ilusão de que a sua morte foi o triunfo à vida de uma grande guerreira.
|