E agora, Zé?




Geraldo Hasse


Escaldado pelo frio, estou aprendendo a usar luvas para lavar a louça. E nada como uma pia cheia para ordenar as idéias enquanto a água com sabão de coco vai levando a sujeira pelo ralo. A gente vai lavando, limpando e, de repente, está pensando no Lula lá. Que coisa!

Meu coração colorado sabia que esse romance não ia acabar bem, mas nunca imaginei que fosse dessa maneira.

"Todo começo é brilhante, todo meio fatigante, todo final deplorável". Ouvi essa frase de uma moça chamada Marlene, muito anos atrás. Ela a aplicava para as coisas do amor, mas com o tempo aprendi que a expressão vale para todas as situações.

Mundo velho sem porteira. Agosto começa calorento, parece verão, mas logo-logo vai cair geada. Clima mais louco! As coisas parecem fora do lugar mas, olhando bem, está tudo certo, o Sol está no eixo; se a Terra pirou é porque andaram queimando pneu velho em algum lixão ou então foi o excesso de agrotóxico nas lavouras que escorreu para os rios etc e tal. A república também continua, Lula para lá e para cá, pintando e bordando, uma no cravo, outra na ferradura, tentando salvar sua candidatura. Cândida figura, não lhe cai a ficha.

Talvez não caia por força da metalurgia do poder.

Vamos e venhamos, eis que pinta um refrão: que culpa tenho eu, pergunta Zé Dirceu, se o Lula me escolheu?

Lembro aquela vez em que fui à casa do Lula, em São Bernardo do Campo, junto com um grupo, Frei Beto no meio, sensibilizado pela libertação dele, após sua prisão por comandar greves, afrontar a ditadura, aquelas coisas. Foi a única vez que cheguei mais perto dele; ele estava de saco cheio, louco pra ficar sozinho em casa com a patroa, depois de uma temporada na cadeia, e vinha aquela patota oferecer solidariedade. Mas ele aceitou, agradeceu e acabou montando no cavalo que lhe ensilharam. E olha como gosta de cavalgar; mas quem não gosta?

De repente vem a luz: é preciso procurar na estante "Os Donos do Poder", de Raymundo Faoro. Ele ajudará a entender esse processo. Ou então Shakespeare. Mas quem tem tempo para ler os gênios a esta altura do campeonato? Jogo duro, companheiros. O poder corrompe, eis a verdade.

No orelhão do tempo, ouço a voz do Zé falando sobre a tomada do poder, algum dia, pela via democrática. Estávamos na sede da ABR, Agência Brasileira de Reportagem, uma ong jornalística voltada para os jornais do interior de São Paulo. Ele recém tinha voltado "de Cuba..." O papo virou entrevista gravada e publicada em fins de 1979 no Coojornal, cujos arquivos foram depois queimados por ordem do juiz liquidante da massa falida daquela cooperativa de jornalistas, sob a alegação de que não havia espaço para guardar tanto material. Mas em alguma biblioteca (na UFSCar, talvez) se achará um exemplar para conferir a capacidade de análise do homem que agora, mesmo fora da Civil, continua no poder. Ou não?

Sim, o Zé está ali sentado diante da tela, dizendo que não sabe de nada mas mostrando que sabe o bastante para continuar no poder. Não lhe resta apenas o poder de um mandato de deputado federal. Ele tem o poder da informação, pois esteve lá, onde Lula está, por 30 meses. Simples, não?

A quem supunha que ele sairia atirando, Zé surpreende: põe parte da culpa no tesoureiro Delúbio, gasta pouca munição e se refugia numa blindagem de silêncio. Assim ganha tempo, toma fôlego, tem uma sobrevida. Até quando resistirá? "Até o fim", ele prometeu. Vamos ver.

Enquanto isso, a gente tenta juntar os cacos da memória. Nos anos 70 e 80, o pessoal da ex-luta armada tinha certa ascendência nas redações, mas quem mandava eram outros, mais dispostos a ceder. Para os descontentes com o ramerrão da imprensa tradicional, restava a alternativa do jornalismo nanico - empolgante, divertido e cansativo também. E de vez em quando aparecia um gato malhado trazendo alguma novidade. O Florestan, o Gabeira, o Brizola, o Arraes, o Zé, cada um com seu recado, sua visão do mundo, seus novos horizontes para a nação.

Quando a ditadura militar começou a se abrir, os descontentes e os esperançosos se reuniam além dos bares. Na sede paulista da Associação Brasileira de Imprensa, na rua Augusta, 550, em Sampa, o lance das segundas-feiras à noite era ouvir os que tinham voltado do exílio, das prisões ou das catacumbas. Lá estavam o Zé, o Travassos, a Bete Mendes, o Rui Falcão. Parafraseando Lenin, eles diziam o que fazer para formar um verdadeiro partido de trabalhadores.

Agora, vendo o Zé na telinha, cabe perguntar: o que ele fez contra a ditadura econômica que comanda a vida do planeta e escraviza milhões e milhões de pessoas? Exerceu o poder com volúpia e dele teve de apear rapidinho, atacado por um adversário-parceiro-inimigo ferido. Agora tenta se equilibrar no cavalo que lhe resta, senhor de mil e uma informações. Salvará sua pele? E o companheiro Zorro? Pronto, lavei a louça, a pia está limpa, toda a sujeira foi embora pelo ralo e agora resta aguardar as notícias da noite.

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