É tempo de compaixão





Tavares Dias


Espalha-se pelo país um clima de choro e de ranger de dentes. Mas haverá de passar o estupor. Haverão de se curar as feridas. Pague, esta nação, o preço que tiver de pagar, por sua imaturidade política, por seu sonho infanto-juvenil; quando a pedra se assentar no fundo do lodo e as águas retornarem das margens, restaurando a paz do cristalino espelho d´água, restará no fundo da bateia do garimpeiro o ouro da lição. Aproveite-a quem for capaz.

Conforme reza a canção "O profeta" de Lúcio Barbosa, imortalizada por Zé Geraldo, "a vida é uma escola onde o viver é o livro e o tempo é o professor". Povos hoje ditos desenvolvidos já cruzaram situações muito piores, quando irmãos lançaram-se contra irmãos, aos milhares, em campo aberto, enlutando e dizimando. Nações inteiras já seguiram líderes carismáticos em aventuras que resultaram em traumas que hoje significam, no inconsciente daqueles povos, travas de segurança contra vacilos semelhantes.

Oxalá não tenhamos de passar por isso.

Diz a sabedoria popular que quem semeia vento colhe tempestade. Ou, posto de outra forma, com a mesma medida com que se julga se é julgado. O que faz lembrar também expressões como lei da reciprocidade, ou do retorno, ou do kharma, ou do merecimento, conforme a região do mundo e a escola que trate do tema. Contudo, o conhecimento é universal e difere apenas na forma, preservando um conteúdo indiscutivelmente verdadeiro.

Têm sido expostas à execração pública, hoje, no Brasil, pessoas famosas que passaram a vida delatando pessoas e práticas. E que durante o tempo em que passaram delatando não se prepararam para saber gerir, administrar, formular, convencer, implementar. Gente que agora, no poder, não sabe o que fazer com todo o know-how adquirido, que se mostra, subitamente, inútil para quem virou vidraça.

Felizmente, existem, no mundo inteiro (salvo em regimes de exceção), pessoas que estão legitimamente colocadas no lugar de apontar erros e julgar pessoas. E nem a essas é facultado, moral e eticamente, execrar seus semelhantes, ainda que tenham o dever de lhes impor, às vezes, pesadas sentenças, por força do império da lei.

E o que vemos hoje é o mundo desabar sobre as cabeças de pessoas que se especializaram em execrar pessoas. E que agora estão tendo a dura oportunidade de aprender que o erro é inerente à condição humana, que o poder é euforizante, afrodisíaco, inebriante. Uma pessoa subitamente guindada ao poder pode passar por processos internos de desrepressão e deslumbramento de tal magnitude que ela mesma torne-se impotente para lidar com aquelas novas sensações.

Um velho primado da antiga esquerda lembra que "o oprimido já traz, dentro de si, a semente do opressor". Sim, porque opressão também é uma cultura, o que significa que quem passou a vida sendo oprimido está fazendo um "pós-doutorado" em opressão, tornando-se especialista naquilo. Basta-lhe uma chance de desenvolver a "competência".

É quando então, em volta da pessoa, círculos concêntricos de áulicos e puxa-sacos igualmente narcotizados pelas substâncias euforizantes que seus cérebros passam a produzir vão contribuindo para o esquecimento de causas defendidas durante anos. E, sentindo-se no paraíso, agrupam-se paranoicamente para se defender inclusive de antigos parceiros que, mais maduros e equilibrados (ou mesmo alguns não-convidados para o banquete...), ousem alertá-los para a necessidade de evitar-se a rota que leva ao precipício.

Segundo velho e calejado profissional da área de saúde mental que não me autoriza a revelar seu nome, grande parte das pessoas que ululam pelo indispensável fim da corrupção não resistiria a cinco minutos de assédio de um corruptor (que vantagem faz uma pessoa casada que nunca foi cantada, ao apregoar sua fidelidade?).

É fundamental lutar-se contra a corrupção, mas quanto haverá de inveja em algumas pessoas que hoje vociferam contra seus recém-caídos ídolos? Ora, quem ainda precise de ídolos que lhes pague o tributo. O desmoronar de um ídolo pode auxiliar muita gente a crescer. Sentir-se só é o preço inevitável do crescimento.

Haveremos de crescer, como pessoas e como nação. Um dia, garantiremos às crianças o direito à inocência, mas os adultos escolheremos a consciência. O grande sonho do socialismo jamais será possível enquanto pretender-se transformar o todo sem melhorar as partes. E as partes são cada um de nós.

Quando cada um de nós entender que não há outro caminho que não seja o de empreender dentro de si um processo de transformação, aí poderemos merecer nomes como irmãos, amigos, cristãos, socialistas, companheiros, camaradas, seja o que mais for, de bom. E poderemos, sem medo, chegar ao poder e utilizá-lo para o bem comum. E os nomes, então, serão o menos importante de tudo.

Mas primeiro precisamos aprender a não julgar. Ou, mais apropriadamente, a deixar os julgamentos por conta de quem está no lugar de julgar. Para que não precisemos jamais colher tempestades, como tantos hoje estão colhendo.

Não é tempo de ódio. É tempo de compaixão.