Vida de Imigrante - Sabores da terra





Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA

Ia eu tranqüila a percorrer a cidade, envolta em meus cismares matinais, quando me deparo com um espetáculo digno de uma tela de Dali: negras jabuticabas adornando uma banca de camelô da rua Sete. Gordas, rechonchudas, brilhando como olhos de criança travessa. É tempo de jabuticabas?

Três Reais o litro, a escolher, e escolho as mais formosas, que pipocam na boca com sabor de infância. Plantam jabuticabas, ou nascem elas ao acaso da sorte, tão escassas, tão diferentes das plantas comportadas, que dão frutos nas pontas dos galhos? Jabuti, jabuticaba, jabuticabal, ah, que delícia!

Andar pela cidade é uma festa para o paladar e os olhos. A cada esquina camelôs exibem frutas de todos os tipos e sabores. Aqui deparo com o colorido escandaloso das mexericas pocã, suculentas, convidativas. Chegaram, foram vistas e venceram, desbancando as mexericas caipiras, que essas não se encontram mais.

Tem papa de milho verde, pinhas, vermelhos morangos da serra. E mamão, dois Reais os menores, três Reais os grandes, apetitosos em qualquer tamanho e formato. Em Miami, mamões importados da Costa Rica custam cinco dólares cada. Mesmo no câmbio baixo de hoje, a diferença é um espanto.

Banana maçã, banana ouro, banana nanica; yes, nós temos bananas! Na América só temos as nanicas, não conhecem nossa farta variedade bananística. A um dólar o quilo, já não se pode dizer que o barato está a preço de banana. Mas têm grife, a mais popular é a banana Chiquita, também importada de algum país latino.

As bananas até definem nossa cultura. Nós, os latinos, somos chamados, sem muito exagero, de repúblicas das bananas. O que não nos ofende, pois somos todos adoradores incondicionais dessa fruta ímpar, que disputa com a maçã o título de fruta perfeita. Não conheço quem não goste de bananas.

Outra presença infalível nas esquinas da cidade é o coco e seu subproduto, a água de coco, ao natural ou nas verdes maquininhas sofisticadas. Refrescante e nutritiva, a magnífica água de coco é ignorada no primeiro mundo, onde coqueiro é árvore ornamental. Ah, esse coqueiro que dá cocos, cantava Ari Barroso.

Caminhando pela cidade, é impossível não sucumbir a essa salada de frutas tropicais. Comprá-las ou não comprá-las, ó dúvida cruel. Se as compro, estou incentivando a economia informal que não paga impostos e não ajuda o país a crescer, diz o governo. Competição desleal, dizem os comerciantes. Enfeiam a cidade, dizem os intransigentes.

Se as compro, estou ajudando os menos favorecidos, que não encontram empregos e não recebem mensalões. Melhor ser camelô que delinqüente, dizem os realistas. Enfeitam a cidade, dizem os fanáticos pelos sabores que se acumulam nessas bancas improvisadas pelas esquinas. Minhas jabuticabas têm sabor de justiça social.