Adentramos um novo milênio ainda espantados com as maravilhas que a ciência e a tecnologia criaram para incentivar nossa preguiça e alongar nossa existência. Uma simples linha de telefone, comum em quase todas as casas, era considerada um luxo há 20 anos.
A lista de amenidades, supérfluos, desejáveis, indispensáveis e insubstituíveis é longa, e quem não a cobiça? Basta sair um modelo novo de televisão, e se despreza o antigo, desejando a nova quinquilharia. O sonho de consumo de dez entre dez estrelas de
cinema não é diferente do nosso.
No entanto…e tudo que é bom tem um senão pra incomodar, em muitos aspectos nosso mundinho isolado num universo infinito continua tão atrasado como nos tempos babilônicos. As guerras continuam grassando, pelos mesmos motivos de sempre - a busca pelo poder. Eu tenho a força, você tem petróleo!
O atropelo da vida moderna criou novas doenças sem no entanto nos livrar das antigas. A AIDS e a hipertensão, efeitos colaterais da alta tecnologia, disputam espaço - e vidas - com velhos achaques como a tuberculose e a hanseníase. A pobreza absoluta, mãe de todos os males, persiste em bolsões que vão se ampliando cada vez mais. O homem continua amealhando o que puder, sem deixar muito para quem chegar depois.
Sofisticamos a moradia, as cidades cresceram, os meios de transporte evoluíram, a saúde melhorou, a vida esticou. Se a qualidade de vida material melhorou, o coração da espécie enconlheu, apertado entre interesses próprios e mesquinhos, as mazelas do dia-a-dia, as pequenas vaidades particulares de cada um.
Ter mais, e não ser mais. Subir na escala social, alcançar o sucesso como um fim em si mesmo, causar inveja ao próximo. E quem seria esse próximo que nos vigia e tutela, para quem trabalhamos e progredimos, querendo impressioná-lo com nossos conquistas e nossos louros?
Queremos ser mais ricos na vida, e não ter uma vida mais rica. Vivendo sem sentido, levamos o segredo de nossa inutilidade para o túmulo, somos o que somos, sem passado e sem futuro, que só sabemos do aqui e agora. O mais é especulação, sonho, e contas a pagar.
Essas, as contas, se acumulam no fim do mês, chova ou faça sol. Talvez estejamos também acumulando um tipo diferente de contas, que vão vencer em alguma data pré-fixada, a juros galopantes. Ignoramos o valor da dívida, ignoramos a data do vencimento e ignoramos (mas presumimos) o credor. Num www qualquer perdido na internet encontraremos todas as respostas.
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