Vitória (ES), edição de 15 de agosto de 2005
 

Limpeza de terrenos baldios diminui
em três vezes o risco de dengue


Flávia Bernardes
Foto capa: Bernardo Coutinho

A limpeza sistemática de terrenos baldios pode diminuir em até três vezes as possibilidades de a população capixaba ser infectada pelo mosquito Aedes aegypti. O fato foi constatado em dissertação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), apresentada por Haydêe Fagundes de Mendonça (foto), que apontou para a redução do risco de uma epidemia com a adoção da medida.

Haydêe, que é farmacêutica bioquímica e mestre em Ciências Naturais, informou que o lixo é diário nestes lugares e são necessárias a limpeza sistemática e uma efetiva educação da população capixaba para combater o problema.

Dados do IBGE apontam que das 393,7 mil casas na área urbana da Grande Vitória, mais de dez mil jogam o lixo em terrenos baldios diariamente. Sendo assim, o estudo constatou através de um ano de pesquisa que mesmo acabando 100% com os criadouros do mosquito em casas, há indícios suficientes para se afirmar que haverá insetos procriando em terrenos baldios graças ao lixo jogado e às chuvas.

Foram estudados 13 terrenos baldios sem manutenção e 12 que eram limpos mensalmente pela própria equipe da Unidade de Medicina Tropical da Ufes. Nos terrenos - todos com o padrão de 900m² - que eram limpos foram coletadas apenas três larvas do mosquito que transmite a dengue, já nos 13 terrenos sujos foram constatados 15.771 criadouros com 469 larvas do Aedes.

"O terreno baldio mantém o criadouro do Aedes através do lixo jogado e abastecido pela água da chuva. Imagine agora o número de larvas encontradas nos 13 terrenos sujos, multiplicados pelo número de terrenos baldios na Grande Vitória. O número de larvas é absurdo. É necessário levar isso às autoridades de saúde para que exista um trabalho voltado também para os terrenos baldios e ainda incentivo à pesquisa na área", ressaltou.

Segundo os pesquisadores, os terrenos baldios são limpos em media de três em três meses, sendo que o lixo é jogado diariamente. Os pesquisadores alertam que só a limpeza sistemática desses terrenos é capaz de minimizar em muito o problema. "A população precisa saber que não é só murar o terreno, mas que deve protege-lo e limpá-lo para evitar o lixo".

Com a descoberta, abriu-se um precedente para questionar também a possibilidade de criadouros em galerias fluviais como a "boca de lobo", as calhas de casas, e por isso os pesquisadores lembram da importância de novos estudos nessa área. "Além disso, investir na educação da população é muito importante. Nós conseguimos mostrar o risco de um terreno baldio sujo e agora é necessário que a população saiba disso", ressaltou. A coleta pública tem que cumprir seus deveres, completou.

O trabalho já foi apresentado a algumas prefeituras, mas até o momento só a prefeitura de Vitória se manifestou. Em Jardim Camburi uma equipe já começou a limpar os terrenos baldios do bairro.

A pesquisadora lembra que a população é responsável pelo lixo que gera e que este, quando abandonado, é capaz de desenvolver bacterias, fungos, vetores, entre outros. Ela alerta ainda que, em se tratando dos terrenos baldios, o criadouro preferencial do mosquito não são os pneus e sim os materiais descartáveis, como os de metais e plásticos. Nos terrenos estudados, foram encontrados apenas 20 pneus e apenas um tinha um grande número de larvas (25).

É importante que a população saiba que o Aedes é urbano e vive no máximo a 800m de distância do seu criadouro, mantendo sempre o risco próximo às casas.