Vitória (ES), edição de 15 de agosto de 2005
 

Convênio entre Sedu e Aracruz
sobre negros é discutido em Brasília


Flávia Bernardes



O convênio entre a Secretaria de Estado da Educação (Sedu) e a multinacional Aracruz Celulose para o desenvolvimento do programa Identidade Cultural do Negro deve ser reclamado nesta terça-feira (16), informou uma das lideranças quilombolas do Território de Sapê do Norte (São Mateus e Conceição da Barra), Domingas dos Santos Dealdina.

Segundo ela, um seminário para preparação da Conferência Nacional Infanto-Juvenil será realizada nesta terça (16) no Ministério da Educação (MEC), em Brasília, e a intenção é colocar a discussão em pauta, para avaliação junto ao órgão.

Para os quilombolas o convênio entre a empresa e a Sedu é desnecessário e deve ser denunciado ao MEC. Além dele, a Fundação Palmares poderá receber a denúncia.

Em entrevista a este Século Diário, Domingas ressaltou que a Sedu não sabe o que está fazendo, já que a empresa foi responsável por destruir a cultura dos quilombolas do Estado.

Antes da chegada da empresa, no antigo território do Sapê do Norte, existiam 2 mil comunidades remanescentes de quilombos, com 10 mil famílias. Hoje, são 34 comunidades com cerca de 1.500 famílias. Os quilombolas ficaram ilhados entre os eucaliptais e resistiram em extrema pobreza, mal produzindo alimentos para a subsistência.

Os quilombolas ressaltam que a empresa é incapaz de contar a história do povo quilombola e por isso o convênio é inviável. Domingas afirmou que a empresa causou impacto não só na cultura mas na história do povo quilombola.

Para a comunidade, o convênio vai impedir que seja contada nas escolas a verdadeira história dos descendentes de escravos no Estado, e sim de acordo com os interesses da empresa.

No site do governo do Estado, a Sedu informa que o programa "Identidade Cultural do Negro" tem como objetivo capacitar professores da rede pública estadual de ensino para que possam inserir nas disciplinas que lecionam elementos da cultura e da história afro-brasileira.

Contra o convênio, ainda estão representantes políticos como a deputada federal Iriny Lopes (PT) que o classificou como absurdo. A deputada ressaltou o fato da empresa, há um ano, Ter afirmado textualmente que não reconhecia a tradição cultural quilombola na audiência pública na Comissão de Direitos Humanos. A deputada do PT afirmou ainda que a Sedu não tem necessidade de buscar recursos da Aracruz Celulose para formação de professores sobre cultura negra, pois há recursos suficientes no MEC para programas desta natureza.

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