Vitória (ES), edição de 01 de dezembro de 2005    
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Um tratado sobre o sexo na
pré-história (dos videogames) - parte 03

There's Something About Larry



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas


O erotismo da transgressão inocente se consolidaria em Leisure Suit Larry and the Land of the Lounge Lizards (Sierra, 1987), um remake gráfico de Softporn Adventure que inauguraria a mais bem sucedida série de jogos pornográficos para PC.

Leisure Suit Larry possuía um mecanismo de censura quase inútil, baseado em um questionário de múltipla escolha que supostamente só poderia ser respondido por uma "pessoa madura". Nada que qualquer jovem com um mínimo de esperteza (ou um dicionário) não resolvesse facilmente.

  
Foto: Divulgação
  
Trecho do jogo Leisure Suit Larry
Na sua primeira aventura, o objetivo do playboy Larry Laffer era perder a virgindade. Por isso, o sexo não se mostrava como algo excitante, mas extremamente complicado - afinal, era o objetivo derradeiro do jogo. Havia uma série de detalhes e constrangimentos a serem resolvidos antes da primeira vez, além da onipresente ameaça de pegar uma doença venérea e game over.

Se o sexo fosse simples, entregue de bandeja como em um filme pornô (onde qualquer conserto hidráulico é preâmbulo para o coito), a jogabilidade seria atirada por água abaixo.

Larry circulava por uma atmosfera encharcada de sexo - que incluía bordel, cassino e igreja - mas o ato sexual em si não passava de um fantasma, uma promessa que, para o jogador, não se consolidaria nem ao fim do jogo. Não havia nenhum filmezinho para iludi-lo, nenhuma imagem picante, apenas a satisfação de ter ajudado um playboy frustrado e narigudo a se dar bem.

Essa mecânica reforça a impossibilidade de relação com o objeto desejado. Ao contrário do filme pornô, o videogame não mescla ao prazer do voyeur um efeito de identificação com o personagem principal (por vezes anônimo e sem rosto) como forma de consumar simbolicamente esse contato. O personagem do jogo tem sua própria integridade e, por mais que o jogador o controle, eles não chegam a se confundir. Logo, a excitação do jogador é originalmente voyeurística, porque mediada, causada pela fricção com o meio e com o ambiente de jogo.

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