Vitória (ES), edição de 01 de dezembro de 2005    
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O geral e o particular
"Cidade Baixa" apontando novos rumos a partir do velho Cinema Novo



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


Há um quê de precipitação nas comparações entre os filmes recentes produzidos no Nordeste e o Cinema Novo dos anos 60. A precipitação é em muito justificada pela falta de uma iniciativa de produção cinematográfica coletiva no cinema brasileiro dos últimos tempos, algo que os trabalhos de Lírio Ferreira ("Árido Movie"), Marcelo Gomes ("Cinema, Aspirinas e Urubus"), Sérgio Machado ("Cidade Baixa") e Karim Aïnouz (roteirista dos dois últimos e diretor de "Madame Satã") vêm em certa forma suprir - ainda que não configurem um "movimento" propriamente dito. A aproximação com o Cinema Novo se dá, sobretudo, por serem estes filmes que visitam cenários e personagens muito caros aos cinemanovistas, compartilhando com eles a mesma postura de abertura para os temas de sua época, uma sintonia entre os realizadores e o período histórico em que suas obras estão inseridas. Mas são quarenta anos de distância separando estes dois momentos do cinema nacional, e é natural que a visão destes cineastas da "nova geração" seja diferente tanto na forma (há muito pouco da "estética da fome" de Glauber Rocha nos filmes citados) quanto nas abordagens.

  
Foto: Divulgação
  
"Cidade Baixa" talvez seja o melhor exemplo na nova safra de como se estabelece essa relação entre a herança cinemanovista e a urgência de um olhar contemporâneo sobre a realidade (uma relação que varia entre a harmonia e o embate frontal). Onde o Cinema Novo optava pelos grandes painéis globalizantes que dessem conta das diversas nuances do país através de uma representação alegórica, "Cidade Baixa" escolhe a via diametralmente oposta: a opção radical é pelo recorte. Não é preciso mais do que cinco minutos de filme para que já estejamos no centro da roda que ata os amigos Deco e Naldinho (Lázaro Ramos e Wagner Moura) à Karina (Alice Braga). O que liga estes personagens ao mundo exterior é negligenciado. Sabe-se que os amigos são barqueiros e que provavelmente se conhecem desde moleques, sabe-se que a menina é uma prostituta capixaba recém chegada à Bahia, mas a origem desses personagens (tanto física quanto moral) não interessa ao diretor Sérgio Machado. Qualquer traço da existência anterior ou posterior ao encontro do trio é ignorado em nome das possibilidades suscitadas pela interação dessas pessoas. Não se estabelece uma relação alegórica, a menina não é a "representação" das milhares de meninas que precisam vender o corpo como forma de sustento, nem os rapazes são a "imagem" dos tantos jovens marginalizados e subempregados do país. Igualmente não se tenta justificar a natureza sexual e violenta dos três como sintoma de uma sociedade doente, como conseqüência direta de suas condições sociais ou mesmo como reflexo de um comportamento típico de determinada faixa etária. "Cidade Baixa" escapa dessas simplificações ao colar seu destino ao destino dos personagens que acompanha: o único contexto necessário é a própria câmera, o único caminho possível é o rastro deixado pelos protagonistas. É como se, isolados em suas trajetórias particulares, os três só se tornassem personagens cinematográficos a partir desse encontro inicial - Deco, Naldinho e Karina só existem quando juntos.

Mas a esse aparente isolamento contextual que o recorte da trama sugere, Sérgio Machado opõe, já desde o título, uma localização espaço-temporal muito específica. O nome "Cidade Baixa" já nos situa numa zona conhecida, a parte pobre da capital baiana, uma Salvador longe dos cartões-postais, dos blocos de carnaval e dos turistas endinheirados, um lugar por onde transitam personagens secundários das mais variadas tonalidades, filhos de uma cultura subterrânea que segue funcionando à revelia da cultura estabelecida. O contato do trio de amantes com esse mundo no qual estão, paradoxalmente, tão imersos quanto tão estranhamente desligados, diz muito sobre o que pode resistir de Cinema Novo nos trabalhos contemporâneos. Esse universo esquecido que tanto esta nova safra quanto os filmes sessentistas fazem questão de mostrar é tratado por "Cidade Baixa" sem complacência ou mistificações. Não há um discurso sobre esse submundo, deixa-se simplesmente que ele se realize com suas próprias verdades - não mais como uma tese social ou política que busca no cinema sua confirmação (como no Cinema Novo), mas um cinema receptivo às teses geradas pelas próprias histórias e personagens retratados. É aqui que o pêndulo de "Cidade Baixa" tende para o que de melhor tem sido feito no cinema contemporâneo mundial. O tributo necessário ao contexto não esconde a preferência que o filme tem por seus protagonistas. Deco, Naldinho e Karina matam, assaltam, aplicam golpes, mas nenhuma dessas ações relacionadas ao exterior parece provocar neles algum efeito. Não se força uma relação direta entre meio e homem, pelo contrário, ela é constantemente negada. Afetação só há quando o acontecimento é interno, as reações estão circunscritas ao que vem de dentro do triângulo amoroso. Se fica cada vez mais difícil pensar numa "verdade do mundo", geral e aplicável a situações diversas, é nas "verdades particulares", específicas de cada um, que "Cidade Baixa" vai se afiançar. E daí tira sua grande força, a de ser um filme incrivelmente "verdadeiro".

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