Justiça à inglesa:
tu de bêbada não tem dono





Tavares Dias


A Inglaterra é mesmo um país ímpar, do alto de seu elevado e invejável grau de desenvolvimento. Desde que sua sifilítica nobreza, tradicionalmente detentora de grande poder bélico naval, mantinha descaradamente uma armada clandestina, composta da pior ralé de piratas então existente, com o objetivo de pilhar navios pelos sete mares, para usufruto da coroa (as coroas da monarquia britânica sempre foram, se não de pilhar, pelo menos de pilhérias...), jamais o povo inglês perdeu sua característica de uma nação de atitudes e posturas contraditórias, para dizer o mínimo.

Não custa lembrar que lá sobrevive, no formol, a mais degenerada monarquia do mundo, onde escândalos pontificam ciclicamente. Mas também é de se registrar que ali nasceram, por exemplo, a minissaia, os Beatles, os Rolling Stones, o "deus da guitarra", Eric Clapton, o movimento punk e, dentre tantos grandes escritores e poetas mundialmente reverenciados, ninguém menos que o gênio dos gênios da dramaturgia mundial: William Shakespeare.

Londres é legal quando o verão cai no domingo, dizem sarcasticamente os críticos do inóspito clima local. Implicância histórica dos franceses, vizinhos logo ali do outro lado do túnel? Pode ser. Afinal, são eles os grandes apregoadores de que a Inglaterra ostentaria o recorde mundial de pior comida e também de país onde as mulheres não seriam lá muito chegadas a, digamos, queimar incenso no altar de Vênus. Pura maledicência, garantem os ingleses.

Aliás, por falar em implicância, a modéstia passa longe de ser a principal característica do estilo britânico. Quando a Inglaterra aderiu à unificação européia, após anos de avanços e recuos que envolveram as demoradas negociações, um famoso jornal londrino estampou, em sua primeira página:

"Europa rompe isolamento".

Por essas e por outras é que um diário francês instituiu, há alguns anos, um concurso que premiaria os leitores capazes de criar as frases mais engraçadas a respeito dos ingleses. O regulamento prometia: "1º lugar, uma semana em Londres, com tudo pago; 2º lugar, 15 dias em Londres, com tudo pago; 3º lugar, um mês em Londres, com tudo pago".

Ironias à parte, os ingleses, às voltas com seu destrambelhado Tony Blair, cuja atividade preferida é lustrar sua estrela de auxiliar do xerife George Bush no papel de polícia do mundo, continuam se metendo em geladas (sem trocadilhos, por favor). Na tentativa de conter os movimentos doentios do terrorismo que insiste em punir os apoiadores do assalto perpetrado contra o povo iraquiano pelos falcões de Washington e seus asseclas, o patético Blair na primeira fila, executaram barbaramente o brasileiro Jean, sem direito de defesa, com munição proibida, num desastre digno de qualquer das polícias militares ou civis de qualquer república bananeira, Pindorama incluída.

Agora, como se não bastasse, sua Justiça vem a público anunciar, exatamente na Semana Internacional de Não-Violência contra a mulher, que as vítimas de estupro que comprovadamente estiverem bêbadas durante a agressão não terão direito de processar seu agressor.

Quer dizer: num mundo onde cada vez mais as pessoas buscam nas drogas, principalmente no álcool, o alívio para a desesperança e o fim das utopias que a selvageria do capitalismo deletou, a sábia Justiça inglesa decide que as bebinhas da ilha são muito assanhadinhas e que têm mais é que parar com esse negócio de ficar seduzindo fleumáticos gentlemen britânicos que, bebinhos ou não, acabam desavisadamente transformados em monstros por conta dessas criaturas degeneradas chamadas mulheres bêbadas.

Ah, mas a OMS não classifica o alcoolismo como uma doença? Então, a doentes agredidas fica suprimido o direito de buscar na Justiça alguma reparação pelo dano sofrido?

E quem se importa com isso, entre os lordes? Apurando-se os ouvidos, podem-se de novo ouvir, voltando por algum túnel do tempo, emergindo de algum pub ou clube londrino para cavalheiros, por entre o fog, agora entoados por um coro de priápicos neocorsários sexuais, e ainda com apoio da coroa, os versos da velha canção:

"Hum, hum, hum, e uma garrafa de rum".