Os ambientalistas capixabas dormiram no ponto, expressão antiga que quer dizer: não cumpriram os seus deveres, e os resultados da II Conferência Estadual do Meio Ambiente, realizada no final de novembro, em Vitória, não foram os desejados.
Os resultados não foram os desejados pois macularam a conferência 132 delegados a serviço das poluidoras do Estado, como Aracruz Celulose e Samarco. Só para lembrar, a sociedade civil inscreveu apenas 131 representantes, de um total de 457 delegados. Para aumentar o desequilíbrio, as empresas ainda contaram com os favores de alguns dos representantes do governo, os mesmos que as servem nos seus empregos, que a população remunera, alguns até denunciados como corrompidos pelo Ministério Público.
Na sua proposta original, as Conferências do Meio Ambiente se destinavam à ouvir a sociedade civil, atingida pelos impactos de projetos agrícolas e industriais, muitos remontando à época da ditadura militar, como a CST (hoje Arcelor) e Aracruz Celulose, apenas para lembrar alguns. Se destinavam a ouvir as propostas da sociedade civil para coibir tais abusos, que se traduzem por aumento de doenças e mortes que os poluentes causam.
Mas não: o que se viu na Conferência Estadual do Meio Ambiente foi de estarrecer. Na abertura da Conferência, as empresas despejaram seus serviçais, trazidos em ônibus e vans. E os inscreveram normalmente, sem esconder a origem.
Nas discussões dos grupos, os líderes dos mandados pela empresas distribuíam o pessoal. Os representantes da Aracruz Celulose, por exemplo, dominaram numericamente as discussões sobre política florestal. E passaram propostas absurdas, como a de aumentar os plantios de vegetação no Espírito Santo de 600 mil para 850 mil hectares. O máximo que os escassos ambientalistas presentes conseguiram na comissão foi barrar que houvesse clara manifestação no texto para aumento da área das chamadas "florestas plantadas", ou seja, eucalipto e pinus.
A própria Federação das Indústrias (Findes) mobilizou um de seus técnicos, notório defensor das empresas poluidoras, para participar e manipular a Conferência. Os votos eram dados sob comando: muitos esperavam o voto dos líderes, para depois levantar seus crachás na votação.
Onde estavam os ambientalistas do Estado que não participaram da Conferência? Por quê deixaram ou se omitiram de participar?
Por quê, regimentalmente, as empresas puderam inscrever seus defensores? Onde falharam os organizadores da Conferência, Ministério do Meio Ambiente e Ibama à frente, permitindo a atuação das empresas em evento de tamanha importância para o Estado e País? O que deve ser mudado para que a
sociedade civil volte a garantir sua hegemonia, pelo menos, na próxima Conferência?
Pois, como foi, a Conferência Estadual do Meio Ambiente foi um desastre para o ambiente, e uma festa para as poluidoras.
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