Vitória (ES), edição de 01 de dezembro de 2005    
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Filme da 3ª noite
salva produção capixaba



Por Rodrigo de Oliveira
Colunista de Cinema do Século Diário



"Saudosa", de Erly Vieira Jr. e Fabrício Coradello
"Primeiros Passos", de Evaldo Mocarzel


Os dois primeiros filmes da noite de quarta-feira (30) tinham em comum o fato de serem registros do momento exato em que a arte se realiza. Em "Primeiros Passos", as experiências anteriores do diretor Evaldo Mocarzel dão à encenação da feitura de um poema de Augusto dos Anjos um tom curioso de "documentário lírico-investigativo", onde o próprio processo de materialização de uma idéia é captado. Vemos as mãos que escrevem o poema, e em detalhes quase médicos, sua pele, os pêlos do braço, para logo adiante aparecerem os rabiscos que aquela mão joga no papel, os versos desse poema em construção que se apóia nas imagens de um bebê que, após um acidente de carro, engatinha em direção ao mar. A relação entre "Ao Luar" e o bebê não se estabelece necessariamente como metáfora, ou mesmo como a interpretação do poema. Essa associação parece estar muito mais ligada àquilo que se costuma chamar "inspiração", ou a faísca que inicia um processo de produção artística.

Já "Saudosa", o curta capixaba de Erly Vieira Jr. e Fabrício Coradello, vai mais à frente. A mistura de ficção e documentário não se estabelece como a moda atual, em que as duas formas de registro se unem quase que por fetiche (pensemos em "Contra Todos", o longa de Roberto Moreira que filma a ficção como documentário, ou em "O Céu Gira", da espanhola Mercedes Alvarez, que opera na chave oposta). Em "Saudosa", o real e a encenação são sempre faces de uma mesma moeda, não se distinguem, não se influenciam meramente: trabalham juntos, numa parceria cujo objetivo é dar conta de uma história que não poderia prescindir de um ou outro. Há algo do "Close Up" de Abbas Kiarostami no filme de Vieira e Coradello, em especial no tom de fábula real re-encenada para a câmera, onde mais que uma "verdade" absoluta (não sabemos, por exemplo, se a personagem realmente existiu, se as histórias realmente aconteceram) vale uma "verdade do processo", que aqui é incorporado à narrativa num jogo de erros e acertos que, mais que denunciar a fabricação, expõe aquele momento em que o que é idéia, roteiro ou poema se realiza como arte. Metacinema puro onde o "como" é contado vale muito mais que "o que" é contado - e de quebra ainda se faz no melhor curta do Espírito Santo dos últimos anos.

"Bom Te Ver", de Francisco Colombo e Lea Furtado

A primeira (boa) surpresa de "Bom Te Ver" é que, diferente de todos os outros documentários já exibidos no Festival, ele se fie única e exclusivamente em sua personagem. Na quase totalidade do curta maranhense de Francisco Colombo e Lea Furtado, é a artista plástica/atriz/cantora Ana Rodrigues que domina a tela. O depoimento que dá sobre sua vida, as histórias que conta, são ditas diretamente para a câmera, o olho da personagem ligado direto ao olho do espectador. É nos olhos dela que o filme de realiza, e a sábia decisão dos realizadores de não tentarem impor interpretações sobre o que Ana Rodrigues diz torna ainda mais pungente a maneira como suas histórias são expostas. O que de valor pode se atribuir à esse momento em que uma pessoa revisa sua própria vida diante de uma câmera fica por conta do que o espectador percebe e intui de toda a encenação de si mesma que a personagem faz. E "Bom Te Ver", seguro da personagem que decidiu retratar, confia que dessa encenação possam sair idéias muito mais interessantes do que as de um discurso exterior a ela mesma.

"Início do Fim", de Gustavo Spolidoro

Experiência diversa de "Bom Te Ver", "Início do Fim" também se guia pelo mesmo princípio: cinema dos olhos, onde todo o repertório de símbolos externos ao personagem (e no filme de Gustavo Spolidoro eles são muitas, especialmente trabalhados pela direção de arte de Luiz Roque e pela fotografia de Mauro Pinheiro Jr.) só existem para reforçar que o local onde ocorrem todas as transformações de um homem cuja casa é bombardeada numa guerra é no próprio homem. É dele e de seu trajeto dentro de um ambiente que será inevitavelmente destruído que surgem as significações dessa história - uma história recortada, sem localização, sem tempo ou espaço definidos. Uma guerra perdida, a impossibilidade de resistência, a fatalidade anunciada: expressões de um impressionismo que "Início do Fim" elabora muito bem.

"Distúrbio", de Mauro D'Addio
"Kactus Kid - Uma Graficobioanimada", de Lancast Mota
"Balaio", de Luiz Montes


A esses três últimos filmes pode ser imputada a marca da "competência". Em todos, há uma idéia inicial que oferece desafios, e esses desafios são encarados e resolvidos ao longo dos filmes de maneira correta, satisfatória e extremamente competente. Essa marca, no entanto, é o que enche estes curtas de uma frieza incômoda, e ainda que possam ter sido produzidos com alguma (ou muita) paixão, esse sentimento fica de fora do que é projetado na tela. "Kactus Kid" tem um ponto de partida muito interessante: é um documentário feito em animação sobre o quadrinista Renato Canini. Se a idéia é realmente interessante, a realização não consegue fugir de uma tradição conservadora de biografia documental autorizada. No único momento em que se liberta dessas amarras, o trecho final em que o diretor Lancast Mota transforma em animação um dos HQ's de Canini, "Kactus Kid" dá uma luz sobre o quão mais original poderia ter sido - mas o filme, infelizmente, acaba logo em seguida. E se em "Distúrbio" e "Balaio" o ponto de partida não tem nada de convencional, o caminhar das narrativas mostra uma acomodação na transgressão inicial, que não consegue escapar de si mesma. "Distúrbio" é uma espécie de cria mal resolvida do já clássico "Amor Só de Mãe", de Dennison Ramalho (premiado no Vitória Cine Vídeo de 2003), e usa os mesmos ingredientes da relação entre mãe e filho, o clima macabro que anuncia uma tragédia, mas esses elementos parecem engessados, falta o vigor e a contundência da matriz, e a marca (negativa) no fim da projeção é que este é apenas mais um filme a fazer piada com uma boneca inflável. "Balaio", o filme mais bem resolvido dos três, peca justamente por se restringir demais as suas inclinações. Filme de gângsters subdesenvolvidos, oferece momentos de real tensão na história de dois matadores que vão à um bar à procura de um bandido, se mostra muito bem no uso das divisões de tela e da multiplicidade de olhares sobre uma mesma cena, mas peca por ser tão bem realizado quanto totalmente esquecível cinco minutos após a projeção.

[Para conferir as críticas dos outros dias, escolha a data desejada na barra de ferramentas acima, sendo sempre um dia posterior ao exibido dentro do Festival]

E-mails para o colunista: rod_ol@yahoo.com.br


 

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