"Sexo e Claustro", de Claudia Priscilla
"Visita Íntima", de Joana Nin
A grande força desses dois documentários apresentados na terceira noite do Vitória Cine Vídeo é a de não ter medo de enfrentar seus temas, e de se entregar a eles com a integridade que exigem. Muito influenciado pela prática documental de Eduardo Coutinho (tendo até Jordana Berg, parceira de Coutinho em seus últimos trabalhos, como montadora), "Visita Íntima" confia nos encontros com suas personagens, mulheres de detentos que mantém seus relacionamentos mesmo com a distância e o isolamento impostos pelo cárcere. Filme falado por excelência, sua maior qualidade é saber tirar dessas mulheres aquela mesma matéria difusa e intangível dos filmes de Coutinho, uma certa "verdade" específica e própria de cada personagem, que se mostram extremamente conscientes de suas condições e capazes de pensar e refletir suas trajetórias com uma propriedade que nenhuma outra pessoa, a não ser elas mesmas, seria capaz de fazer. Tratando de histórias marcadas por sentimentos tão diversos e profundos como o amor por alguém e a certeza de não poder experimentá-lo livre e incondicionalmente, é complicado dizer que a diretora Joana Nin tire das personagens "o melhor de suas histórias". Há, acima de tudo, uma sensação de inteireza, e mesmo num espaço tão restrito como o do curta, "Visita Íntima" consegue dedicar às mulheres que retrata uma abertura e uma cumplicidade (não confundida com a mera adesão) cada vez mais raras.
Experiência recorrente nesta edição do festival, "Sexo e Claustro" é um filme brasileiro realizado no exterior. Esse distanciamento geográfico e histórico reforça o caráter de universalidade da história de uma ex-freira que conta seu trajeto desde os traumas da conversão e dos sacrifícios a que se submetia para provar sua devoção até a saída dos quadros da Igreja quando se envolve num relacionamento lésbico. A diretora Claudia Priscilla toma o cuidado de não tornar a revelação da homossexualidade de sua personagem um acontecimento fílmico que mereça destaque, antecipação ou mesmo que provoque choque e surpresa. Todo o depoimento, aliás, é assumido como o relato da própria construção da personagem enquanto mulher, desde a isenção forçada pela religião até a descoberta de seu corpo, sexualidade, e mais que isso, das possibilidades do ser feminino que eram obrigatoriamente esquecidas dentro da Igreja. Esse caminho todo é marcado pela calma e convicção do depoimento da personagem, e esses sentimentos se espalham pelo filme todo (que é rodado, por exemplo, em ambientes religiosos onde aparecem constantemente imagens de santos e capelas, sem que, no entanto, isso seja encarado como uma crítica direta àquela estrutura ou mesmo uma afronta a um regime que marcou tão negativamente a protagonista). Desvencilhando-se de uma história de ressentimento, e de seu oposto, de um conto de redenção, o maior mérito de "Sexo e Claustro" (o melhor documentário exibido no festival até agora) é o de colar seus sentimentos aos sentimentos de sua personagem, e ao fazer isso, não perder o juízo crítico: é um filme tanto para a garganta quanto para o coração.
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