Melhor seleção até agora, os vídeos exibidos no Metrópolis nesta quarta-feira (30) tinham, em sua maioria, o próprio fazer cinematográfico como tema (e longe dos purismos normalmente exaltados quando se fala nesse assunto, ainda que em formato digital, os melhores vídeos da sessão eram puro cinema).
| |
Foto: Divulgação
|
|
| "O Ex-Exú"
|
"O Ex-Exú", de Cactos Intactos
"Cinema da Luz Vermelha", de Rodrigo Modenesi
"Bitola Cabeça Super 8", de Gabriela Barreto E Vitória Araújo
"Uma Homenagem a Aluízio Netto", De André Novais Oliveira
Melhor seleção até agora, os vídeos exibidos no Metrópolis nesta quarta-feira (30) tinham, em sua maioria, o próprio fazer cinematográfico como tema (e longe dos purismos normalmente exaltados quando se fala nesse assunto, ainda que em formato digital, os melhores vídeos da sessão eram puro cinema).
"O Ex-Exú", do coletivo carioca Cactos Intactos, parece aqueles filmes em que os realizadores inventam uma desculpa narrativa - no caso, um ex-exú que atira para todos os lados - para desfiar suas idéias e referências cinéfilas. Descendente direto de "Câncer", o grande filme pouco visto de Glauber Rocha, o vídeo se estrutura a partir de perguntas que os diretores, de fora da tela, fazem para a bizarra figura retratada, e a condução dos temas e dos petardos lançados por ele é toda feita a partir desse artifício. A intervenção direta provoca momentos de pirotecnia pura, com ataques que atingem desde os paulistas ("o paulista não é brasileiro") até o próprio cineasta-referência ("quem é Glauber Rocha?", pergunta o ex-exú).
| |
Foto: Divulgação
|
|
| "Cinema da Luz Vermelha"
|
Filme apaixonado na mesma medida é
"Cinema da Luz Vermelha", de Rodrigo Modenesi, mas a reverência agora é com o inventor do cinema de metalinguagem brasileiro, Rogério Sganzerla. Entrecortando uma entrevista realizada com o cineasta em Paris com uma série de pequenos trechos e frames de filmes que se aproximam ou se afastam da proposta de cinema defendida e realizada por Sganzerla (há desde "Rastros de Ódio", de John Ford até "Viagem à Itália", de Roberto Rossellini), o vídeo de Modenesi termina de maneira maravilhosa: totalmente descolados de tudo o que passara antes na tela, surge um casal nu e claramente excitado que se preparam para o sexo. A maneira como se colocam, tão explicitamente, é algo com o qual não há correspondência no cinema de Sganzerla, que costumava não incluir cenas dessa natureza em seus filmes. Estando, pois, no final de um vídeo onde tudo o que existe são as palavras do gênio, esta cena é como uma indicação de Modenesi para a continuação das idéias de Sganzerla, partindo agora para pontos que ele ainda não havia tocado em sua carreira. Uma proposta de homenagem a um talento que não se conforma em apenas louvar, mas inclui também a possibilidade de um diálogo artístico real.
| |
Foto: Divulgação
|
|
| "Bitola Cabeça Super 8"
|
Esse mesmo diálogo é proposto em
"Bitola Cabeça Super 8". Ainda que, enquanto documentário, o vídeo esteja um pouco amarrado a certas convenções que não combinam com seu tema, é quando se volta para o resgate dos filmes produzidos pelo grupo de cineastas baianos que nos anos 70 fez do Super 8 sua plataforma de experimentação que o trabalho de Gabriela Barreto e Vitória Araújo ganha vida. O tom também não é de homenagem pura e simples, e sim da necessidade de recuperação do mesmo ideal propositivo e não acomodado daquele grupo de realizadores, um diálogo que fica cada vez mais urgente diante da pasmaceira em que parte da produção de cinema do país se instalou.
| |
Foto: Divulgação
|
|
| "Uma Homenagem a Aluízio Netto"
|
E, num desdobramento prático do que os três vídeos comentados sugerem,
"Uma Homenagem à Aluízio Netto" é a encenação fictícia do filme mudo de um cineasta que nunca existiu, vítima de um grupo comunista que altera as cartelas do trabalho, dando-lhe as conotações políticas que a história original não continha. Ainda que tímido nas relações entre o romance água-com-açúcar e o filme político, é um ótimo exemplo de como esse diálogo com o passado pode se materializar.
| |
Foto: Divulgação
|
|
| "Compre na Mercearia da Esquina"
|
"Compre na Mercearia da Esquina", de Vitor Graize e Vitor Lopes
"Entrevista de Trabalho", de Lobo Pasolini
"TV Falcatrua", de Gilbertinho
A contribuição capixaba para o tema do cinema sobre o próprio cinema se dá, curiosamente, por três trabalhos aos quais uma impressão superficial chamaria de "toscos". Cinema feito pela vontade e pelo barato da própria realização, os vídeos carregam na carga irônica e ao mesmo tempo propõem a questão da produção de imagens "custe o que custar", entendendo isso como o custo mínimo necessário. Tanto "Entrevista de Trabalho" quanto "TV Falcatrua" fazem da câmera personagem, uma incorporação do aparato cinematográfico à própria encenação que propõem e que casa o dentro (aquilo que aparece) com o fora da tela (os realizadores, suas equipes, seus equipamentos). Já
"Compre na Mercearia da Esquina" é um exercício de humor transgressor na linha do melhor cinema mudo (reforçado pela trilha sonora e por uma ingenuidade canalha presente em quase tudo no vídeo: no ator, na própria trama, na câmera e nos letreiros finais).
| |
Foto: Divulgação
|
|
| "22h30"
|
"22h30", de Fábio Santana Limma e Augusto Cantanhedê
"Neguinho e Kika", de Luciano Vidigal
"Onde Está América Latina? Uma Mina de Ouro em Puelmapu", de Pedro Dantas e Cristian Cancino
E se, isolado, o vídeo carioca "22h30" já pareceria equivocado, dentro de uma seleção que apresentou trabalhos tão criativos e tão instigantes, sua avaliação é ainda pior. Filho do cinema falido que acredita que muito barulho, câmera louca e sacada esperta no final são garantia de sucesso, surge sozinho como um exemplo anacrônico de um tipo de arte que não diz respeito a ninguém a não àqueles em busca das emoções fáceis. Os últimos filmes da tarde, a ficção "Neguinho e Kika" e o documentário "Onde Está América Latina?" se valorizam por tratarem de temas onde seria fácil cair no simplismo reducionista (a vida de um menino do tráfico, no primeiro, e a luta de um povoado argentino contra a exploração de uma empresa multinacional no segundo) com a dignidade que merecem. Trabalhos menores, mesmo assim se destacam pela capacidade de resolverem suas situações sem atropelos ou jogadas narrativas vazias.
[Para conferir as críticas dos outros dias, escolha a data desejada na página principal do hot-site, sendo sempre um dia posterior ao exibido dentro do Festival]
|