Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2005    
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VCV tropeça na noite de quinta



Por Rodrigo de Oliveira
Colunista de Cinema do Século Diário


  
Foto: Divulgação
  
"Cão sedento"

Pior noite do Festival até agora, a sessão desta quinta-feira (1) no Teatro Glória foi, no mínimo, curiosa. Atraso de mais de uma hora na homenagem a Marco Nanini, a estranheza da projeção em 16mm perdida num quadradinho dentro daquela tela gigantesca, a exibição injustificada de três vídeos (por que foram exibidos ali, se o lugar dos vídeos é no Cine Metrópolis? Por que só esses três e não todos os outros vídeos? Perguntas que a organização do Festival precisa responder), uma seqüência de 13 animações - nas últimas, mais da metade da platéia já tinha ido embora. Poucos dos filmes exibidos ofereciam alguma possibilidade de crítica. Vamos a eles.

"Às 7, às 3 e às 11", de Renato Chiappetta
"O Cão Sedento", de Bruno De Sales
"Cio Gasoline", de Thiago Domingos


Depois de quatro dias desta que é a edição com a melhor seleção da história do festival, com a exibição de alguns filmes que passarão a ser marcos do curta-metragem brasileiro recente (pensemos em "Habanera", "Sexo e Claustro", "Historietas Assombradas", "Mestre Humberto", "Vinil Verde", "Veja & Ouça"), fica mais patente a fraqueza de filmes como "O Cão Sedento" e "Cio Gasoline". O primeiro, um filme policial da Paraíba, não escapa em nenhum momento - até porque parece não querer escapar - da anedota filmada. Aquela sacada do final, aquele clima de suspense, os enquadramentos cheios de afetação, tudo contribuindo para que até a única boa idéia do filme (a narração de uma programa de rádio sensacionalista) se perca no meio de seus equívocos. Já "Cio Gasoline" repete todos os clichês ligados à vida urbana, à tensão das grandes cidades, ao vazio existencial (!) dos personagens largados à própria sorte - ainda incluindo o mais novo clichê em alta, uma cena de lesbianismo (tão cheia de pudores e medos que precisa incluir um homem na parada). E há ainda a oposição frouxa entre o som orquestrado do "Trenzinho Caipira" de Villa-Lobos e as cenas da banda de rock de garotas.

Nesse panorama, um filme tímido como "Às 7, às 3 e às 11" se destaca, simplesmente por ser honesto com sua história e com o espectador. Assumindo-se cinema mudo (não há diálogos, apenas ruídos e música), leva esta característica à todos os seus elementos, desde a atuação estilizada e excessiva, passando pela trilha sonora, sempre pontuando cada emoção do filme, até mesmo o próprio desenvolvimento do roteiro e dos intertítulos, uma história simples de desfecho previsível (o que não é um defeito em si, já que o filme não se estrutura a partir unicamente do final, como os outros dois). O cuidado na confecção de cada plano fica evidente, a fotografia muito precisa, mas sem chamar atenção para o quanto é boa, os atores bem afinados. Não é nenhum Buster Keaton - e ninguém, além do próprio, jamais será - mas presta-se muito bem a um cinema cuja essência é a própria encenação.

  
Foto: Divulgação
  
"Curupira"
"Curupira", de Fábio Mendonça e Guilherme Ramalho

Sobre "Curupira", basta dizer que é um filme infantil feito em parceria com a TVE, onde um porco tendo sua cabeça cortada numa tábua de carne é registrado em plano fechado, onde a figura folclórica do título assassina sem piedade os capangas que estavam matando animais na floresta e cujo último plano mostra o sangue da menina protagonista que acaba de ser morta pelo próprio pai a tiro respingado nas paredes e no corpo do Curupira. Há que se colocar, então, muitas aspas em "filme infantil", nesse trabalho primoroso dos paulistas Fábio Mendonça e Guilherme Ramalho. O financiamento estatal fica claro na animação do diabinho de pé virado, uma experiência de computação gráfica no meio de cenas de ação ao vivo tecnicamente perfeita (e que deve ter custado muito). Mas "Curupira" sabe se valer do domínio da técnica para ajudar sua história, destilação de um conto conhecido de todo mundo mas nunca visto com essa crueza.

"Animato", de Jéferson AV
"Tem Um Dragão No Meu Baú", de Rosaria
"Fraulein Gertie", de Tomás Creus e Lavínia Chianello
"Nino E Dado Em A Guerra Definitiva", de Leo Rangel
"A Morte Do Rei De Barro", de Plínio Uchoa e Marcos Buccini
"Brtld_Bertoldo", de Cristiano Trindade
"02 Conjunto Residencial", de Adams Carvalho e Olívia Brenga


  
Foto: Divulgação
  
"A Morte do Rei de Barro"
Com "Historietas Assombradas (Para Crianças Mal-Criadas)", o diretor Victor Hugo Borges colocou o padrão da animação em curta-metragem lá no alto. A partir dele (das possibilidades que ele oferece, da maneira com que trata a animação), já não é mais possível aceitar sem reservas os trabalhos dessa natureza. Continua sendo fundamental que eles sejam exibidos - mesmo os mais barrocos, os menos articulados ("Essa é a real", "Muiraquitã", "El Toro de Guernica", "Exterminador") - mas o cuidado que Borges dedica a seu roteiro, à concepção de sua idéia, precisa despertar os animadores para a necessidade de investir mais nesse sentido. Talento técnico existe de sobra, está aí "Animato" que não nos desmente - fruto do trabalho de 18 animadores do país todo, mostra o quão diversa e criativa é a produção brasileira. Essa diversidade técnica (aliada a um trabalho conceitual apurado) esteve presente em bom número na noite de quinta-feira. "Tem um Dragão no Meu Baú", a melhor animação da noite, cumpre o que promete. Usando a técnica clássica dos desenhos feitos à mão, é um pequeno conto infantil sobre a imaginação que vale pela sinceridade com que se exibe. "Fraulein Gertie" e "A Morte do Rei de Barro", animações de bonecos, tratam de temas espinhosos (uma "viúva negra" canibal, no primeiro, o cangaço como um jogo de peças marcadas, no segundo), que são muito bem resolvidos dentro de suas tramas. "Nino e Dado em A Guerra Definitiva" e "BRTLD_Bertoldo" mostram o tamanho das possibilidades que os programas de computador hoje acessíveis a qualquer um geram. "Nino e Dado", um filme assumidamente positivo, articula muito bem a relação entre um mundo "palhaço" da paz e um mundo sisudo da guerra, enquanto "Bertoldo" é uma experiência gráfica com ritmo fascinante. "02 Conjunto Residencial" articula imagens reais e animação tradicional para fazer um pequeno tratado sobre a solidão e o isolamento imposto pela estrutura habitacional (reflexo de uma estrutura social), rompido parcialmente pelo personagem que salta de um trampolim de seu apartamento e passeia pelo ar.

[Para conferir as críticas dos outros dias, escolha a data desejada na barra de ferramentas acima, sendo sempre um dia posterior ao exibido dentro do Festival]

E-mails para o colunista: rod_ol@yahoo.com.br


 

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