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Foto: Divulgação
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Há um jeito incômodo de documentário institucional em "Doutores da Alegria". O novo trabalho da diretora Mara Mourão (de "Avassaladoras") se estrutura a partir dos depoimentos dos palhaços-atores que há anos trabalham em hospitais infantis do país. Há no filme a clara noção de "dar voz e rosto" a essas figuras cujo trabalho é tão importante quanto anônimo. Isso se dá, no entanto, de maneira um tanto duvidosa. O complemento do título, "O Filme", sugere um registro que leve às telas o trabalho destes doutores auto-intitulados besteirólogos. Mas o que vemos é uma sucessão de relatos, ajudados pela pirotecnia gráfica que volta e meia joga em cena desenhos antigos de clowns e pierrots, que se esforçam em falar sobre o "ser palhaço". A atividade dos palhaços nos hospitais muitas vezes aparece em segundo plano, submetida às explanações sobre a condição do ator enquanto palhaço, a natureza do trabalho circense, uma sucessão de teorias tortas que se chocam diretamente com o tom de alguns dos depoimentos: sendo o trabalho nos hospitais um exercício constante do improviso, da idéia que precisa nascer e acontecer instantaneamente diante de um paciente, soa quase paradoxal o esforço em tornar a figura do palhaço louvável em si.
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Foto: Vitor Lopes
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| Lata de "Doutores da Alegria"
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Esse desvio (natural, se partir dos palhaços, posta a necessidade de reconhecimento da qual todo artista brasileiro parece estar imbuído, mas equivocado quando incorporado pela documentarista, daí o jeito de filme institucional) chega a quase por em dúvida a nobreza e a devoção inquestionável do trabalho dos doutores. É quando se livra do discurso vazio - que chega a precisar de uma "especialista" para dar mais crédito a suas supostas "verdades", mas que ignora quase totalmente a opinião de pais e pacientes sobre o assunto -, e se vira exclusivamente para a ação dos palhaços nos hospitais, que "Doutores da Alegria" ganha força. Há um detalhe revelador sobre os registros que Mara Mourão realiza nesses momentos. Quando presentes no quarto onde os palhaços atuam para as crianças doentes, a equipe do filme nunca é percebida. Ligados diretamente àquilo que os palhaços encenam, pacientes e pais de pacientes sequer olham para a câmera com aquela curiosidade natural que o aparato cinematográfico gera. É essa ligação, surgida na frente das lentes em vários momentos, que salta do filme como o grande trabalho dos Doutores da Alegria. O filme, no entanto, não encampa essa ligação como central. E acaba saindo um registro pobre que não faz jus ao objeto que retrata.
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