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Foto: Divulgação
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| "De 10 a 14 anos
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"De 10 a 14 anos", de Marcio Schoenardie
"Anexos", de Gabriel Perrone, Duda Novaes e Tiago De Luca
A ficção em seu melhor, o exercício da dramaturgia, a articulação consciente e planejada de cada plano, o trabalho cuidadoso de enquadramentos. "De 10 a 14 anos" e "Anexos" estão entre os melhores filmes ficcionais deste festival, incluindo aí tanto vídeos quanto curtas em película.
"De 10 a 14 anos", do gaúcho Marcio Schoenardie, é o grato reflexo das idéias que Jorge Furtado aplicou em seus três longas-metragens. Mas o diretor não trabalha na mera cópia de um modelo já testado com sucesso por filmes como "Houve Uma Vez Dois Verões" e "Meu Tio Matou um Cara". Há ainda a mesma preocupação primeira com o roteiro, mas Schoenardie leva a história a seu modo. É, sobretudo, nas encenações que o diretor mostra a que veio. Certos planos são compostos de maneira tão harmônica, trabalhando com a consciência das limitações do vídeo (algo que "Houve uma Vez", por exemplo, não tem muito bem resolvido) para adequá-las a sua proposta - há um plano em particular, quando Marciano, o adolescente protagonista do filme, está numa plataforma com seus dois melhores amigos diante do mar e do céu nublado de uma praia gaúcha, com a disposição perfeita dos atores no quadro (lembrando algumas composições de Sergio Leone em "Era Uma Vez no Oeste") e o achatamento e a falta de profundidade do formato devidamente resolvidos, fazem dessa a cena mais bonita exibida até agora no Cine Metrópolis. Na mesma chave de Furtado, Schoenardie realiza uma pequena pérola que alia uma história acessível e de fácil comunicação com o público com um sentido de realização rigoroso.
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Foto: Divulgação
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| "Anexos"
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"Anexos" caminha para um lado diferente. Se "De 10 a 14 anos" mereceria uma transferência para película, sem com isso perder sua força, o filme paulista de Gabriel Perrone, Duda Novaes e Tiago De Luca é daquelas experiências nascidas para o vídeo. Dividindo a tela em dois, acompanhamos as trajetórias de um homem e uma mulher andando pela cidade de São Paulo. A câmera, trabalhando em dupla função, ora é um olhar sobre esses personagens específicos (quando caminham isoladamente), ora se cola ao olhar do próprio personagem (nos momentos em que se encontram na rua, e se percebem, mesmo à distância). Os quadros em separado se entrelaçam e se relacionam de maneira a nunca chamar atenção exclusiva para si, as imagens dialogam (há que se destacar o trabalho de montagem de Leonardo Cardoso). E "diálogo" talvez seja a grande chave do filme. A divisão física dos dois personagens, a fotografia em preto-e-branco, o tom de deambulação, tudo isso poderia indicar a mais um trabalho sobre o isolamento e a incomunicabilidade. Mas homem e mulher em "Anexos" estão em constante comunicação. O que os separa é mera circunstância, suas conexões se estabelecem no ar (através de símbolos como uma história em quadrinhos e um quadro com a cara de um palhaço). Se fica cada vez mais difícil se relacionar próxima e fisicamente, "Anexos" parece dizer que esta é a chance da descoberta de novas formas de contato.
"Lágrima", de Gui Castor
"De Onde Vem a Calma?", de Pedro Côgo e Mariana Reiz
Dois capixabas na sessão.
"Lágrima", de Gui Castor, tenta ser uma reflexão sobre a religiosidade mas é incapaz de articular algo além da concatenação de duas imagens um tanto óbvias, uma mulher chorando e uma série de vitrais de igreja (filmados com aquela "agilidade" e "esperteza" típicas de um pensamento restritíssimo sobre a natureza do vídeo) - completados por uma música que diz tudo o que o diretor não consegue fazer com as imagens. Não é que seja ruim, "Lágrima" apenas não diz nada.
Já "De Onde Vem a Calma?" é a coisa mais constrangedora a ser exibida nesse festival. Exercício mórbido de assassinato de uma música tão boa quando a do grupo Los Hermanos, que dá título ao "vídeo", o "trabalho" de Pedro Côgo e Mariana Reiz é uma seqüência pobre de imagens sugestivas tão batidas que poderia passar por uma grande comédia - não fosse o fato de seus diretores levarem tão a sério a camisa de força, a boneca de pano, a bola vermelha e... e a referência à crucificação de Cristo. O trecho final, uma dublagem da música feita num close do rosto de Pedro Côgo (que é o "protagonista", por assim dizer), é de deixar o espectador com medo de olhar na tela. Num festival que mostrou como a produção capixaba se esforçou em fazer mais e melhor, "De Onde Vem a Calma?" é a grande nota dissonante.
"Todo Via, Contudo, Entretanto, Embora", de Veruska Almeida
"Antecipato Visione", de Eduardo Zunza
"Sem Ana", de Rafael Barion
"Mequinho", de Felipe Nepomuceno
"Yalode Damas da Sociedade", de José Pedro Silva Neto e Maria Emilia Coelho
"Superstição", de Allan Sieber
"Todavia..." é um videoarte capixaba muito tímido em suas reflexões sobre (sempre isso) a cidade e o homem urbano. Falta-lhe a disposição para as tentativas e para o incômodo de "Antecipato Visione", mistura de registros caseiros de imagens do começo do século com cenas de uma tatuagem sendo feita enquanto sons propositalmente irritantes se repetem. "Sem Ana", vídeo paranaense, fala sobre a inevitabilidade do tempo, num esquema de "a história se repete como farsa", contando o caso de um sujeito que volta no tempo e tem a chance de consertar um erro que cometeu. Ainda que não escape do campo narrativo restrito em que se insere, consegue resolver bem suas questões (e ainda adiciona um ar meio David Lynch meio Gus van Sant com um casal de fotógrafos sinistros que passeiam por todo o filme).
Os documentários da sessão são marcados pela competência em suas abordagens, que no entanto não escondem uma certa falta de criatividade, ao usarem todos os elementos clássicos e tradicionais do gênero. Ainda assim, "Mequinho" e "Yalode" cumprem o papel do qual se incumbiram, mostram seus personagens e seus temas de maneira direta e sem floreios. Daí o "sem lugar" de um filme como "Superstição", registro contínuo de um momento trivial na vida de Paulo César Peréio e sua família num passeio de carro. O vídeo de Allan Sieber acaba provando que Peréio tinha razão no imbróglio, mas isso é uma dado incontestável: seja qual for o momento, Peréio sempre tem razão.
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