O som ainda não encontrou seu lugar dentro da linguagem eletrônica. Pelo menos é isso que deve parecer para quem freqüentou o último Hipersônica, porção do FILE dedicada à, na falta de um termo melhor, pós-música.
FILE é o Festival Internacional da Linguagem Eletrônica, cuja quinta edição aconteceu mês passado, no Espaço Cultural do Sesi, em São Paulo/SP. O festival reuniu três eventos complementares: uma exposição (subdividida em instalações, hipercinematividade, netart, games e arquivo), um simpósio (com palestras de artistas e pesquisadores de todo o mundo) e o Hipersônica (não menos internacional).
Aparentemente sem conseguir definir o melhor espaço para o Hipersônica, a organização optou por todos os possíveis. Performances de DJs e VJs aconteceram durante a semana de 31/10 a 04/11, em uma salinha montada dentro da própria exposição, na galeria do Sesi. No auditório, foram realizados dois shows, cada um enfileirando quatro atrações. E, no sábado, a Casa das Caldeiras abrigou várias apresentações simultâneas, feito rave frankenstein.
O dilema do espaço não assombrou apenas a produção. Tanto artistas quanto audiência se portavam em um lugar como em outro, afetados mais por vícios de etiqueta do que pelas condições específicas de cada um. A dinâmica palco-platéia está tão introjetada no público que ele se comporta, mesmo em um espaço livre e sem referências como a pista de dança, transformando-o em teatro de arena.
Foi isso que aconteceu no Território 1, espaço das principais atrações na Casa das Caldeiras. Embora tenha sido construído de forma a envolver o público, com três telas enormes circundando o saguão, ele não escapou de ser convertido em tablado.
Durante as primeiras apresentações, as pessoas se posicionavam sentadas ao seu redor, espremidas contra a parede, reduzindo o Território (projetado para dar conta de espectadores dispersos, imersos e em movimento) a uma zona morta, coberta por magnetismo radioativo. Atravessar aquela pista era tabu, como invadir o procênio no meio da peça ou passar na frente de um projetor de cinema.
Por outro lado, foram os cowboys de picape e edirol que não se encaixaram muito bem no auditório do Sesi. Postos em cena, eles lançam mão do autismo, repetindo o que fazem na pista de dança, sem se dar conta de que a platéia está devidamente protegida da estética do excesso pela distância entre o palco e as cadeiras.
Pareciam não perceber o quanto suas tímidas figuras deixavam a desejar como maestros daquelas óperas alienígenas - o quanto a sua presença (de palco e no palco) descobria a performance desumana que tentavam vender. Nessas condições, fica clara a vulnerabilidade de obras cuja força está somente em instigar o público e provocar efeito. Deformadas pelo espaço teatral, tudo o que conseguiam causar era tédio.
"Obrigado pela paciência" foi a primeira fala do DJ Spooky, a última e mais controversa apresentação da primeira noite do Hipersônica. Talvez do evento inteiro. A começar porque ele não fez um live PA: deu uma palestra.
O autor de Rhythm Science (MIT Press, 2004) subiu ao palco visivelmente constrangido pelos colegas de profissão. Sua postura, camisa de gola e discurso, perfeitamente adequados ao espaço do auditório, destoavam por completo do resto do festival, de tudo o que se tinha visto até então.
Mas não foi isso que provocou o escândalo do público, sequer seu sermão sobre economia solidária para culturas digitais, e sim como essa arenga foi transmitida. Preparado para shows, o auditório não possuía infra-estrutura necessária para um colóquio internacional. A fala de Spooky teve que se alternar com a da tradutora, que, sem conseguir pensar em uma posição mais adequada, postou-se de pé ao lado dele.
Durante toda a noite, público e artistas haviam experimentado os limites que existiam entre si, mas trataram de respeitá-los. Por isso, não é difícil entender o incômodo causado pela presença da tradutora, que não pertencia a um lado nem a outro. Ela ali era um mecanismo de comunicação, um meio entre conferencista e audiência, e não se sentia compelida a obedecer a protocolos. A bem da verdade, participava deles.
Acontece que os expedientes de informação precisam estar ocultos para funcionar. É imperdoável quando eles se revelam - e, pior, se revelam humanos. Ao se colocar junto do artista, interrompendo-o, a tradutora se tornava aquilo que buscava repelir: ruído.
O público, que deixou passar todos os erros cometidos na tradução dos simpósios do FILE, não perdoava o mínimo deslize com a fala do DJ. E, já que as fronteiras haviam sido derrubadas, ele finalmente se sentiu à vontade para se comportar no auditório como em uma boate, ou melhor, em uma feira.
A tradutora, esgotada, após um dia de funcionamento ininterrupto, pifou: daí pra frente, a palestra virou qüiproquó, com todos os papéis invertidos, e o próprio Spooky reduzido eventualmente à condição de platéia.
Chega a ser irônico que, depois do chilique audiovisual de tantos artistas, o mal-funcionamento dessa ferramenta sutil - e orgânica - tenha sido o único capaz de provocar uma reação no público do Hipersônica.
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