Peço licença ao Oscar, o carioca que assina regularmente os textos dessa coluna, para lançar duas perguntas em uma. Qual a percepção de vida que incomoda os moradores de uma cidade e como isso constrói os caminhos deles?
Sem querer entrar na coluna do meu outro amigo, o Heraldo, faço uso de uma metáfora criada pelo argentino Nestor Garcia Canclini para comentar sobre a banda mais instigante que reside nestas terras capixabas e que é responsável por parte da resposta das questões acima.
Num subtítulo nomeado "Nem Culto, Nem Popular, Nem Massivo", o escritor afirma que para falar de certos cruzamentos culturais não é bom fazer um filme, um livro, nada que vá de um começo a um fim. Seria melhor imaginarmos uma cidade com suas confusões e interações. Não se sabe o que encontrar em cada ladrilho. Um bairro é diferente do outro, com expectativas distintas, movimentos estranhos e com alguns cheiros e comportamentos indecifráveis. E, como bem sinaliza o hermano, cada um se movimenta de um jeito.
Com passos tortos, dedos firmes no sapato e olhar abrangente, surgem personagens num palco de um teatro. Trajes escolhidos: a boina, os óculos, o chapéu, a saia e blusa aberta. Não é peça, embora também pretenda ser. É música, mas também apetece não ser somente isso.
"Palavra é bobagem humana", ouve-se o tom do desagrado. No palco do Teatro José Carlos de Oliveira, o Sol na Garganta do Futuro. O show inicia com "Criança Nenhuma Pode Entender", apresentando o verborrágico - mas com idéias - vocalista em sintonia quase perfeita com a seca marcação dada pelo baterista.
Tímido, um outro sai do violão e toma a guitarra para si. O flautista troca o seu singelo instrumento pelos ataques ao violão. Enquanto isso, palavras nervosas fluem da boca do vocalista, passam pelos dedos do baixista que se anima em modulações e terminam numa interrogação ao público presente.
Como que influenciados por certas passagens artísticas do norte-americano John Cage - autor do célebre 4'33", ou "Silence" -, os músicos/personagens deixam a confusão do início do grupo e passam a aderir ao sábio uso da tentativa do silêncio nas músicas. O sucesso alcançado deve-se ao recitar de poesias, característica positiva do grupo. Tais intervalos sonoros dão tempo para que o ouvinte tente construir sensações.
No palco, o citado vocalista Fabrício Noronha lembra um incontrolável Caetano Veloso em sons e gestos. Caetano está tão presente que aparece numa versão sincopada de "Lua, Lua, Lua", com frases quebradas e vocais desafinados do guitarrista. Com a timidez mais aparente dos demais músicos, o maior personagem que ali se destaca é o de Fabrício, que atua como o domador do leão, controla os espaços do palco, esbarra nos tripés e brinca com os músicos.
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Foto: Divulgação
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No meio do show, algo curioso: a citação de um funk carioca: "é som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado". A referência e assimilação é simples. Assim como o funk, o happening do Sol não bate fácil na tentativa de lógica criada pelo público.
A esquinas das ruas da cidade imaginária construída pelo Sol na Garganta poderia servir de trilha para obras de Ítalo Calvino. Justifica-se, então, a marcha fúnebre com um samba cada vez mais torto presente em "Guitarra Outra Vez", e exageradas notas disparadas no baixo.
Mas como evitar o positivo exagero do grupo? Exagero no (não) culto ao Nirvana, na crítica à própria geração dos componentes e aos que criticam a atual "geração perdida de coisas quebradas". O Sol brinca com isso de incomodar os anos 90 ao realizar uma mistura de um previsível samba-enredo com a fórmula consagrada do grunge.
Em música aleatória, fica a questão: há saída para a música hoje, onde tudo parece já ter sido criado? Abusar do silêncio misturado a sustos musicais e poéticos parece ser um desvio interessante em cidades com prédios já construídos. E tem dado certo brincar e incomodar os sentimentos.
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