No discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor videoarte (por "Quem", dividido com "Antecipato Visione"), o diretor Luiz Rezende fez uma menção direta à crítica escrita aqui sobre seu filme. Disse que seu trabalho era pequeno, uma experimentação, válida mesmo que se "esgotasse em si mesma" (esta a referência literal ao que publicamos), como havia dito "uma certa crítica". A reação de Rezende ao que escrevemos carrega em si os dois motivos principais que nos levaram a embarcar na loucura de pensar criticamente mais de 100 filmes no curtíssimo espaço de 5 dias.
O primeiro motivo é a falta de crítica de curta-metragem no país. As leis de incentivo e os editais públicos fizeram a produção brasileira dos últimos anos crescer incrivelmente, mas a crítica não acompanhou esse crescimento. Os filmes, no entanto, cada vez mais trazem questões importantes, se desdobram em maneiras de fazer cinema que os longas-metragens quase nunca se permitem: foram e continuam sendo o maior espaço para experimentação audiovisual. Essa pujança, não raro, morre quando acabam os festivais. Contatos são feitos, aplausos e vaias são recebidos, prêmios são distribuídos, mas o diálogo com a crítica não se estabelece - e, por termos nos dedicado na última semana ao trabalho exaustivo de análise dos filmes, fica claro o quanto devotamos de importância a essa atividade, uma importância que "não se esgota em si", mas cuja única função é dar aos filmes a atenção e a importância que merecem e que sempre lhes é negligenciada pelo jornalismo corriqueiro, quando não totalmente ignorada. Daí que não fomos "uma certa crítica", fomos a única. Isso, é claro, submete os filmes analisados ao juízo de uma única fonte de opinião. Mas entre comungar do silêncio crítico já estabelecido nas redações dos cadernos de cultura e cantarmos num campo tão abandonado como o da crítica cinematográfica de curtas (ainda que com os riscos de se estar sozinho), preferimos a segunda opção. Não por uma falsa nobreza auto-imputada: é uma questão de respeito e paixão pelo cinema.
O segundo motivo vindo da reação de Rezende é a própria reação. Se a crítica de um filme americano que entra em cartaz presta-se quase que exclusivamente para o espectador, fazer crítica de curta-metragem num festival que permite que quase todos os realizadores venham apresentar pessoalmente seus trabalhos é também dialogar diretamente com estes realizadores. Nesse ponto, o repúdio à crítica de alguns filmes veio acompanhado da troca aberta de idéias com aqueles diretores que conseguiram ultrapassar o melindre, e tendo sido criticados ou elogiados, se propuseram a discutir seus trabalhos, a responder com a mesma articulação as críticas, e mesmo a questionar certas considerações (porque, como em toda atividade, também incorremos em falhas). O que fica claro neste festival, dada a qualidade já exaltada anteriormente, é que o momento de aplauso automático da produção, só porque se trata de uma tarefa complicada num país como o nosso, que sempre olha enviesado para a cultura e a arte, esse momento já passou. Trabalhos fracos, que se escondam atrás desse tipo de desculpa, podem até continuar sendo premiados (afinal de contas, os júris também incorrem em falhas), mas já não contam com a complacência nem do público, nem dos colegas realizadores, nem muito menos daqueles que se proponham uma atividade crítica. Trabalhos fortes (sejam eles bons ou ruins, mas que pretendam vôos maiores), que se fazem tanto com o dinheiro estatal como com o dinheiro do próprio bolso, que investigam novas possibilidades ou que retrabalham as velhas de maneira renovadora e construtiva, que proponham uma comunicação com o público de maneira honesta e aberta, que, acima de tudo, contribuam para o cinema ser um pouco mais do que é, estes trabalhos terão sempre a garantia de nossa atenção.
O Festival em si, ao mesmo tempo que surpreendeu pela ousadia e sintonia na seleção com o que de melhor se produz no país, segue cometendo os mesmos erros internos de sempre. Um certo desprestígio dos realizadores capixabas em detrimentos dos que vem de fora, os atrasos indesculpáveis nas sessões do Teatro Glória, a desarticulação com o poder público (que patrocina o Festival) para organizar um esquema especial de transporte que possibilite que os espectadores permaneçam na exibição dos longas-metragens. No que tange as atividades propostas, é preciso urgentemente tirar debates tão importantes como os que aconteceram nesta edição do Hotel Ilha do Boi e colocá-los num local mais acessível - chega a ser constrangedor que uma palestra com um gênio como o fotógrafo Dib Lufti seja assistida por 20 pessoas, quando a mesma poderia ser realizada na Ufes, por exemplo, para um público dez vezes maior. Há ainda a estória não explicada da exibição dos vídeos "A História Secreta do Telemarketing", "Meninos de Areia" e "Curupira" no Teatro Glória. Feitas as ressalvas, esperamos que o próximo festival divida com esse todas as qualidades, e supere os defeitos. Quanto a nós aqui da coluna, seguimos todas as segundas-feiras com textos sobre cinema, muito felizes pela repercussão que a cobertura crítica do Vitória Cine Vídeo obteve, e já esperando (se este colunista sobreviver até lá) pela próxima. Até lá!
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