Vitória (ES), edição de 05 de dezembro de 2005    
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Mostra de vídeos encerra
sem grandes destaques



Por Rodrigo de Oliveira
Colunista de Cinema do Século Diário


  
Foto: Divulgação
  
"Foi Assim"
"Foi Assim", de André Amparo e Ana Cristina Murta
"Futebolisticamente", de Rodolfo Pelegrin e Daniel Boesel


Onde está o discurso no cinema? Para "Foi Assim", ele está muito depois da imagem. Partindo de cenas de um grupo de três pessoas num churrasco, pessoas que parecem não saber que estão sendo gravadas, os diretores desfiam um repertório de frases poéticas e filosóficas que nunca se casam com as imagens prosaicas dos "protagonistas" registrados. É o discurso posterior, lutando para se fazer dentro da imagem, cuja única conexão é a vontade dos realizadores em que haja uma. As frases, aparecendo em legendas amarelas sobre o fundo preto e branco e mudo das imagens, têm fontes tão diversas quanto Hilda Hilst, Jorge Mautner e F.W. Nietzsche, e no entanto, se misturam e se entrelaçam de maneira a dar uma consistência e uma unidade de idéias quase mágica. O resultado é uma fascinante dupla apropriação: uma imagem que só significa através do discurso, e um discurso que só pode existir se apoiado na imagem.

Já "Futebolisticamente" acredita que o discurso precisa ser interior à imagem. Mais que isso, que a imagem seja mero veículo dele. Exercício tímido de aproximação entre a sina de um homem e sua relação com o futebol, o vídeo paulista não consegue em nenhum momento se realizar visualmente: tudo o que seus realizadores querem informar é dito diretamente pelo protagonista à câmera. Como programa de rádio talvez funcionasse, mas ignorando o suporte visual, "Futebolisticamente" (como outros dois vídeos paulistas vindos da mesma fonte, "Quero Ser Jack White" e "Do Mundo Não Se Leva Nada", de Charly Braun) não consegue mais do que umas poucas risadas e nenhuma vocação cinematográfica.

"TV Muro", de Fábio Britto e Simone Lara
"Fã", de Fábio Lima
"Chaudanneano", de Paulo S. Souza
"Cavalo Marinho", de Filippo Liloni
"Berlington Bertie From Bow", de Carlos Lersch


Os documentários da sessão se fundavam quase todos numa certa cumplicidade com seus personagens, todos eles permeados por um respeito grande com seus temas - o que é sempre um risco, quando se confunde respeito e cumplicidade com adesão inquestionável. "TV Muro", vídeo simples sobre um sujeito que funda uma rede de televisão cujo alcance é de 5 casas para além da sua própria, onde fica instalado o aparelho que justifica o título, quase escorrega para a tentativa de encher de "grandeza" a iniciativa conscientemente pequena (e por isso valorosa) do protagonista quando se escora numa frase do polêmico Assis Chateaubriand para fechar sua narrativa.

"Fã" e "Cavalo Marinho" são mais cuidadosos nessa entrega, e em alguns momentos chegam a jogar através da tela questões muito interessantes, em especial a eterna pendenga entre a alta e a baixa cultura, e sua validade diante de manifestações como a dos fundadores de fã-clubes de artistas bregas e da encenação folclórica em um povoado nordestino.

"Chaudanneano" é, destes, o mais direto em suas intenções: um artista (o francês radicado no Espírito Santo Gilbert Chaudanne) que fala sobre sua arte, todo o discurso surgido no vídeo vem diretamente da boca do próprio protagonista, sem implicações posteriores ou intervenções maiores do diretor.

O último vídeo, "Burlington Bertie From Bow" é um documentário mentiroso e canalha sobre uma figura que não é real - e só o chamamos de "documentário" porque sua graça reside numa certa seriedade e na postura do protagonista, de nome Fernando, que anda de cartola e fraque por um parque, cantando uma música que graficamente aparece na tela como se vinda de um videokê (existem aquelas legendas). O gênero oficial é o videoclipe, mas o vídeo gaúcho funciona muito melhor como o registro de uma turma de amigos brincando de cinema num dia de sol.

[Confira a análise final do VCV na coluna de cinema, dentro da capa do Caderno Atrações]

E-mails para o colunista:
rod_ol@yahoo.com.br


 

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