Vitória (ES), edição de 05 de dezembro de 2005    
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Filme capixaba surpreende



Por Rodrigo de Oliveira
Colunista de Cinema do Século Diário


  
Foto: Divulgação
  
"Biografia do Tempo"
"Biografia do Tempo", de Marcos Pimentel e Joana Oliveira
"No Princípio Era o Verbo", de Virgínia Jorge


Dois dos filmes mais interessantes exibidos no Festival, "Biografia do Tempo" e "No Princípio Era o Verbo" caminham na direção de um exame das relações entre a palavra e a imagem, até onde se diferenciam, até onde se esgotam, e mais que tudo, de que maneira podem se completar. Co-dirigido por Marcos Pimentel e Joana Oliveira, o curta mineiro é um belo ensaio sobre a memória estruturado a partir da relação entre as imagens do documentarista cubano Santiago Alvarez e do escritor brasileiro Pedro Nava. Mais que o elogio de um tempo passado ou o fechamento dela na caixa da mera lembrança, "Biografia do Tempo" faz com que imagem e palavra se desafiem mutuamente, um desafio dialético de onde, mais que o acaso ou a vontade, surge uma parceria verdadeira.

  
Foto: Divulgação
  
"No Principio Era o Verbo"
O mesmo pode-se dizer de "No Princípio Era o Verbo", da capixaba Virgínia Jorge. Mais que a necessidade ou a vontade verbal ou imagética, é a própria crença nessas duas formas de expressão que está em jogo. Filme falado por excelência, apresenta uma série de histórias, anedotas e discussões cuja única morada é a palavra daqueles que as proferem. Alguns homens num bar discutem sobre a origem da roda, um cego conta uma parábola inconclusa sobre um elefante (a mesma, aliás, que justifica o nome do filme de Gus van Sant). Mas, diferente do que poderia se imaginar, Virgínia Jorge filma esses momentos com o mesmo vigor com que seus personagens contam seus casos. Porque a crença de "No Princípio Era o Verbo" se contempla tanto da palavra quando da imagem - é daí que surge a força do momento inicial, um bloco de carnaval meio frouxo que caminha por uma rua, e num outro momento particularmente inspirado, onde um menino encontra uma caixa de papelão na rua e passa a rastejar sobre ela gerando a sensação de que a caixa anda sozinha (uma referência direta ao que é dito no filme: como pode um objeto desse andar sem rodas? E mais, como podemos saber do que se trata se só tocamos uma parte dele, e não compreendemos seu todo, sua fusão menino-caixa?). Por essas questões, e pela consciência com que trata delas, o filme de Virgínia Jorge figura ao lado de "Saudosa", de Erly Vieira Jr. e Fabrício Coradello como um novo patamar: depois do que alcançaram, já não é possível aceitar e aplaudir qualquer filme capixaba simplesmente porque são daqui.

[Confira a análise final do VCV na coluna de cinema, dentro da capa do Caderno Atrações]


 

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