Faz mais de 20 anos que certa vez um músico capixaba me procurou, pedindo-me que desse uma olhada crítica em alguns poemas seus. Acrescentou que a tal coletânea havia recebido opinião desfavorável de pessoa bastante conhecida nos meios literários capixabas.
O que pude sentir, na leitura dos poemas, disse-lhe: diferentemente do respeitável sentimento da outra pessoa, eu acreditava que seu conhecimento do idioma era bastante razoável para o seu nível de prática de então, e que suas imagens e seus temas prenunciavam um poeta ainda em gestação mas já aí pelo sétimo, oitavo mês, chutando impacientemente a barriga da mãe. Algo assim.
Anos depois, maturada pelo tempo e cinzelada pelo exercício, parte de sua boa poesia viria a lume em "Um camaleão sobre o muro".
Pois o Zeca da Flauta, que além de flautista mesmo é também saxofonista, compositor e capoeirista, além de ganhar a vida como engenheiro florestal há uns trocentos anos, tornou-se nos últimos anos o contista capixaba Marco Berger. Recentemente, durante a II Bienal Capixaba do Livro, lançou "Suíte verde jaspe", seu terceiro livro, o segundo de contos.
Primeiro de tudo, tomei um susto medonho, com o bom livro do Berger. É preciso explicar que Berger é também graduado em Filosofia, como já dava bandeira o título de sua obra de estréia no conto: "A medida de todas as coisas". E, em "Suíte...", esse viés filosófico salta imediatamente aos olhos do leitor mais experimentado.
Então, seja porque ele é um escritor filósofo, seja porque nas veias desse brasileiro capixaba flui, além do sangue, uma sólida cultura alemã, seja ainda (numa concessão feita aos adeptos da astrologia exclusivamente por este articulista aqui) por seu perfil de virginiano, o raciocínio dos eus líricos de "Suíte verde jaspe" corta na carne de seus personagens incisivamente, com frieza e precisão de microcirurgião.
Assim como o mestre Graciliano Ramos é por muitos considerado o autor brasileiro mais descompadecido de seus personagens, também em Marco Berger a pessoa ávida de finais róseos, diáfanos e inefáveis não deve procurar personagens felizes. Bobagem. Ali ela encontrará apenas gente. E não é todo mundo que tem coragem de topar com gente, haja vista a quantidade de pessoas que prefere viver ao lado de seres idealizados, praticamente negando a existência do ser real com quem compartilha o caminho.
Marco Berger não faz literatura pra dar esperança de vida a ninguém. Trabalha seu material como um desassustado joalheiro maneja seu buril. Conforme emerge do barro a figura angustiante, inesperada, torta, gritante, durante uma sessão de biodança, a beleza da instigante literatura desse importante escritor capixaba está em ser ela própria, com digital, íris e assinatura a comprová-lo.
Ah, mas pode lembrar Kafka, Poe, Bukovski? Até pode, é claro, mas só ao leitor que conhece esses autores, portanto as associações devem ser de responsabilidade única dos arquivos da cabeça de quem as faz, incluído o escriba aqui - por mais "óbvia e ululante" (só pra lembrar nosso maior dramaturgo, Nelson Rodrigues) que seja esta explicação.
E traços da desesperança de uma ou outra importante linha filosófica, podem ser encontrados na obra? Também. De qualquer maneira, um escritor ou pensador só pode ser mesmo fruto de tudo que ele já conheceu, admirou, idolatrou, negou, adotou, misturou. O fundamental é que ele se pareça mais consigo mesmo do que com qualquer outra idéia, corrente ou pessoa. E é o caso.
Mesmo que você não seja do tipo desmilingüido, a literatura de Marco Berger vai te dar uma porrada tão grande no meio da lata que é possível que você se sinta meio aturdido em meio aos primeiros contos. Sugiro que você respire, quem sabe vá até a janela, ou tome um copo d´água, e então entre com mais coragem na obra.
E aqui é essencial lembrar a observação contida no prefácio de "Suíte...", assinado por Jorge Nascimento, doutor em Língua Espanhola e Literaturas Hispânicas: "Ao leitor desavisado, Marco Berger deixa mais um recado: não se preocupe, é tudo ficção. Já o professor, escritor e poeta Paulo Sodré ressalta, nas orelhas do livro, que um "elemento como o tempo, tão caro à elaboração de uma modalidade como a narrativa, é trabalhado de modo que seus termos se esfumam diante de uma presença comum: o homem e sua tensa humanidade. Seja qual for a época,(...) nós estaremos sempre fadados à competição, ao desejo de poder e, por conseguinte, à violência tanto no exercício competitivo como na prática prazerosa."
Voyeurizando as argúcias-astúcias-angústias dos personagens de Berger em "Suíte verde jaspe", poderá algum leitor mais sagaz perceber, de súbito, um clima em que a literatura tira a música pra dançar, enquanto a filosofia faz algum beicinho. São os momentos em que o ser, o self, anterior ao engenheiro e ao filósofo que há em Berger, teima em mandar um martelo no peito do cartesianismo, trincando uma estrutura cultural e fazendo aflorar, à sua revelia, um fragmento do autor que também já fez samba de breque, e do bom.
Música, filosofia, literatura da boa e, sobretudo, os desencontros do Homem feito um cão correndo em círculos atrás do próprio rabo são as âncoras desse "Suíte verde jaspe", obra que já ombreia Marco Berger com os bons contistas brasileiros. O ademais só dele depende.
Os histéricos vão correr desse livro às léguas, de cabelos em pé. Mas, em compensação, os obsessivos, feito na magia de "O flautista de Hamelin" (conto do inglês Robert Browning inspirado em lenda alemã), vão seguir esse contador de estórias até as prefundas dos infernos e dos céus da alma humana e se enfiar neles até as orelhas.
"Suíte verde jaspe", de Marco Berger. Editora Província Culta. Nas melhores livrarias de Vitória.
O último a chegar é mulher do padre.
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