Adoro livros, mas as livrarias me inibem. Ver aquela fileira anônima de livros lotando as prateleiras ou empilhados nos balcões me dá a ideia, reconheço que errada, de desperdício, de quantidade superando qualidade. Mas um livro solitário, ou na companhia de poucos amigos do mesmo naipe, exerce uma atração irresistível sobre mim.
E aí leio tudo, não importa o estilo, o autor, o gênero. Também voto não para o chamado livro de cabeceira. Um livro de cabeceira é uma metáfora, claro, indicando o livro que se tem sempre à mão, ao qual se volta para renovar as energias morais ou mentais, e ficava bem num tempo em que as publicações eram escassas e os livros muito caros.
Hoje em dia, com tantas novidades saindo das prensas a cada minuto, como ler tudo? Quantas obras maravilhosas perdemos porque não há tempo, ou dinheiro, ou mesmo informação para chegar a eles? Seguir a moda e ler os chamados best-sellers também não é a melhor política, porque a maioria não passa de manipulação, pobres de nós.
As bibliotecas, infelizmente, também não cumprem o papel que deveriam cumprir - ser a catedral onde todos os santos seriam devidamente reverenciados. Sem falar que achar um título atualizado em uma biblioteca é, de fato, a verdadeira raridade.
Resta-nos chorar, não apenas a grande obra que não escrevemos, mas também a grande obra que não pudemos ler. E as que lemos, que fim terão, uma vez que os exíguos espaços a que a vida moderna nos confina não nos permitem manter nossa biblioteca ideal. E como acho que um bom livro dever ser lido pelo maior número possível de leitores, passo meus livros adiante.
Quero que outros desfrutem do prazer que eles me deram, mas isso também pode trazer problemas. Comprei um livro que uma amiga publicou, li , gostei e passei adiante. O exemplar estava autografado pela autora, mas quem o levou não o devolveu, e com o tempo esqueci a quem o emprestei.
A autora, com algum senso de telepatia, me pediu que lhe mostrasse o livro. Dei mil desculpas, adiei - em vão. Acabei tendo que confessar o crime que havia perdido o livro. Claro, a amiga nunca mais falou comigo, o que mostra que não era boa amiga, portanto não me fez falta. Mas o livro, sim, era bom, e esse eu perdi.
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