Vitória (ES), edição de 12 de dezembro de 2005    
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A Confiança na Personagem
"Cinema, Aspirinas e Urubus", um filme entregue aos próprios retratados



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


O "sertão branco" que o fotógrafo Mauro Pinheiro Jr. fabrica em "Cinema, Aspirinas e Urubus" (em cartaz no Cine Metrópolis desde o dia 2) chega a incomodar as pálpebras nas primeiras seqüências, incômodo esse substituído logo em seguida por uma sensação estranha de acolhida, um abraço no qual a imagem envolve o espectador na mesma alvura que inicialmente parecia tão avessa a essa aproximação. Assim também se procede em relação à música do filme, quase sempre interior à própria cena, canções e temas distantes dos ouvidos atuais, e que no entanto rapidamente se avizinham do nosso imaginário. Luz e som, bem como a ambientação das locações e dos cenários naturais por onde passa a câmera do diretor Marcelo Gomes estão lá para fornecer essa relação de embalo a partir de um elemento que, à primeira vista, parecia querer o contrário. O grau máximo desse paradoxo aparente, explicitado nos 5 minutos iniciais, é também o que esclarece as intenções do diretor pernambucano com seu filme: há o sertão estourado, há a radiola tocando Francisco Alves, há a paisagem cinza dos galhos secos, uma aridez patente, e no meio disso tudo, um alemão cujo pertencimento àquela situação parece estapafúrdio no momento inicial, mas que logo se mostra um integrante em harmonia com aquilo que o cerca. Johann tem com aquele ambiente a mesma ligação que Marcelo Gomes quer forjar com seu espectador: mais que estar ali (Johann no sertão, o espectador no cinema), mais que acompanhar um momento, é preciso se sentir abraçado por ele. Mais que adesão: é preciso um embarque, ver e viver por dentro aquela história.

  
Foto: Divulgação
  
Tudo o que existe no filme e o que pode vir a brotar dele está entre Johann e Ranulpho
E ainda que todos os elementos técnicos trabalhem nesse sentido, o fazem apenas para "ajeitar a cama" - o convite para se deitar é confiado exclusivamente aos dois personagens centrais. Confiança, aliás, parece ser a palavra que capta melhor a relação que Gomes cria com seus protagonistas. "Cinema, Aspirinas e Urubus" não tem necessariamente uma trama. A história do filme, estritamente falando, se esgota nas três ou quatro linhas das sinopses publicadas nos tijolinhos dos jornais (um estrangeiro e um brasileiro se encontram no sertão e passam a viajar de povoado em povoado vendendo o remédio do título através da apresentação de cine-propagandas), e os temas mais óbvios que tais sinopses sugerem giram quase sempre em torno da superação das diferenças entre pessoas de origens tão diversas e a amizade que brota dessa superação. Tudo o que existe no filme e o que pode vir a brotar dele está diretamente relacionado à interação entre Johann e Ranulpho. Se a narrativa segue sem grandes atropelos, se não faz uso de nenhuma virada dramática, se não tem nem mesmo clímax ou anti-clímax, isso não é mais que o reflexo da maneira como o galego e o sertanejo estabelecem sua relação. Marcelo Gomes também não se apressa em atribuir a cada um desses sujeitos as implicações-clichê que suas condições humanas e sociais carregam. A riqueza desses personagens não nos é alardeada pelo diretor; seu papel é o de criar condições (o abraço a que nos referimos no começo) para que eles mesmo se provem ricos, não por uma questão de auto-consciência e valoração, mas no que se desafiam e se interpelam mutuamente, na possibilidade de exame pessoal que o contato com o outro permite. Não é o caso de um simples "filme de personagens". São personagens co-autores de um filme.

É daí, sobretudo, que nasce o mundo de temas que "Cinema, Aspirinas e Urubus" viceja. Vêm diretamente das palavras e das ações dos protagonistas todos os assuntos que preenchem o filme, e a importância de cada um deles, sua exaltação ou seu rápido esquecimento, é confiada à vontade e ao peso que esses assuntos têm na vida de cada um dos dois personagens. Vemos partir de Johann (Peter Ketnath) uma série de considerações sobre sua condição de "estrangeiro embalado", fiadas especialmente no tratamento sincero que dá a seu país de origem e ao que o acolheu. E o desenho de Ranulpho (João Miguel) se faz justamente no confronto com esse seu oposto. "Brasileiro desgarrado", surge nele um retrato diverso de quase a totalidade da representação habitual do nordestino no cinema brasileiro. Nada da nobreza e do heroísmo intrínsecos à existência miserável da seca, nem do apelo pobre-coitado dos abandonados à própria sorte - Ranulpho é extremamente crítico da condição do povo sertanejo, a quem atribui um sem-número de xingamentos, sempre no sentido de descolar sua imagem progressista daqueles que considera fadados (porque acomodados) ao fracasso. A aproximação que o estrangeiro promove entre o brasileiro e seu próprio país poderia soar forçada caso Marcelo Gomes tomasse para si essa tarefa. Parceiro de seus personagens, deixa que eles se resolvam entre si - ao diretor coube a sensibilidade de reconhecer em Johann e Ranulpho o encontro capaz de abraçar um filme inteiro.

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