Com a força de mobilização das palavras, Arnaldo Jabor acionou a sua metralhadora giratória e acaba de publicar um artigo seminal e polêmico ("Vamos continuar de braços cruzados ?", O GLOBO, 29/11/05).
O artigo pode ser seminal porque pode "balançar a roseira" do pensamento nacional. Seminal e instigante. Ainda, ele pode ser seminal porque poderá atiçar a força da ação coletiva, vale dizer, da sociedade organizada e dos formadores de opinião. Atiçar para questionar, e não atiçar para destruir. Por isto é que pode ser seminal.
De forma agressiva e devastadora - como, de resto, é o estilo dos iconoclastas -, Jabor acusa os poderes da República de erguerem uma muralha que abafa a crise política. Literalmente: "quando haverá manifestações da sociedade para confrontar a ópera bufa que rola à nossa frente? As denúncias foram todas provadas e o Executivo de Lula continua negando tudo, o STF desconstrói evidências, as malandragens dos partidos esvaziam os fatos? A muralha dos poderes resiste diante das palavras..."(O GLOBO, 29/11/05).
Ainda no estilo dos grandes iconoclastas e polemistas, ele acusa "direita" e "esquerda" de promoverem uma espécie de acordo tácito para jogar a crise para debaixo do tapete: "... as manobras do atraso de direita e do atraso de esquerda trabalham unidas para que a mentira vença ...." (O GLOBO, 29/11/05).
A partir daí, Jabor avança com as suas "teses amplas", sendo a mais ampla a idéia de que a situação atual mexe com dogmas. Mexe, por exemplo, com a imagem simbólica do presidente Lula. Mexe com as grandes idéias generalistas, as meta-narrativas do movimento da História, que não dão importância à micropolítica e à microeconomia da realidade.
Mexe, ainda, com a própria idéia do que é ser de esquerda: "...o homem de 'esquerda' hoje em dia tem que perder fé e esperança (...) o verdadeiro progressista tem de agir sem saber o final da estrada, tem de partir do não sabido e inventar caminhos..." (O GLOBO, 29/11/05).
Defendendo radicalmente a necessidade de fazer uma reforma política radical no Brasil, Jabor registra com veemência que só uma "força plebiscitária" poderia pressionar por esta reforma. Só a força da sociedade, só a manifestação cabal da opinião pública e, o que é instigante, só uma ação continuada de notáveis da República.
Ou seja: só o recado das ruas, conjugado com o descortínio histórico dos oráculos da República, poderia fazer germinar uma radicalidade pela reforma política radical. É bem provável que em 2006 o processo eleitoral faça nascer as sementes desta radicalidade. Pois é bem provável que, em 2006, os cidadãos brasileiros se manifestem de forma mais cabal.
De qualquer forma, é salutar a chegada dos iconoclastas como Jabor. Um pouco de polêmica vai fazer bem ao país.
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