Dias atrás, enquanto a Câmara dos Comuns excomungava uma das maiores eminências pardas da História do Brasil, encontraram-se em Brasília o sábio da propaganda brasileira e o aprendiz de feiticeiro, 35 anos depois do (des)encontro que tiveram às margens do Tietê. Não se viam há muito tempo mas, fora os cabelos brancos, permaneciam os mesmos. Trocando impressões sobre o progresso nacional, concluíram estar de acordo sobre algumas questões essenciais.
Por exemplo, concordaram que os primeiros quatro elementos continuam sendo o ar, a água, a terra e o fogo. Manifestaram dúvida quanto ao quinto elemento (o amor), mas divergiram completamente quanto ao sexto: o sábio acredita que se trata de um atributo divino; o aprendiz diz que foi inventado pelo Diabo. Falavam do Marketing, segundo o sábio; ou do Malketing, segundo o aprendiz.
- O marketing é o Bem - argumentou o sábio.
- O marketing é o Mal - respondeu o aprendiz.
- É a alma do negócio - redarguiu a águia.
- É arma do Diabo - insistiu a perdiz.
- Ruim com ele, pior sem ele - voltou o grande guru.
- O marketing é mais nocivo do que benéfico porque ele estabeleceu a distorção como matriz dos eventos - disse o aprendiz.
- A frase é boa, mas não se sustenta.
- Quem não se sustenta mais é o malketing. Ele "cria" fatos políticos, inventa planos inviáveis e no final, quando a vaca vai pro brejo, tem explicações prontas e justificativas cabais para todos os desvios e fracassos.
- O marketing não mente, apenas carrega nas tintas; no fundo, atende as expectativas das pessoas.
- Ele explora os desejos das pessoas, mas não as atende.
- O ser humano sempre quer mais.
- O malketing dileto nos enreda numa teia de consumo que não satisfaz.
- Lembra-se do Charm, o fino que satisfaz? Reconheça que é genial!
- Gênios a serviço do mal... O marketing associado à ciência criou a ponkan, uma ficção cítrica, constituída de uma bela casca, um punhado de ar e um vago gosto de tangerina.
- Mas você não gosta de nectarina, de uva rubi e de outras criações do gênero humano?
- Sim, mas não a esse preço. O marketing é especialista em dourar a pílula.
- I love New York...
- Não, você não ama Nova York; ama o poder corruptor do dinheiro.
- É verdade, o dinheiro move o mundo.
- O marketing lava as batatas, encera as laranjas, envolve as flores em papel celofane.
- Veja bem, o marketing melhora a aparência das coisas, enriquece a vida das pessoas.
- "Veja bem", o malketing tem explicação para tudo, até para a lavagem de dinheiro.
- Mas é tudo para nosso bem, companheiro...
- Que é isso, camarada? Fabrica produtos que não servem, inventa soluções mágicas por "preços que não existem" mas não é capaz de acabar com as filas nos bancos e nos postos de saúde.
- O marketing gera milhares de empregos...
- Ignora a miséria, põe out door na frente das favelas.
- O marketing é apenas uma ferramenta, não tem a chave da felicidade.
- Mas promete o paraíso. Apropria-se dos inventos e os transforma em atrações. Cria programas fantásticos e terceiriza o serviço para não assumir responsabilidade. Assim garante a sustentabilidade do continuísmo das maracutaias.
- Nós criamos a pronta entrega...
- Vocês transformaram a cruz do calvário num símbolo de fé.
- ...nós inventamos a assistência técnica autorizada...
- Contaminam os alimentos, envenenam o meio ambiente, manipulam a arte, desconstroem a ética, criam atrações sem conteúdo, fazem festa sem alegria mas sabem quem tem...
- ...aquele algo mais, rá-rá-rá.
- Vocês são os pais do trololó, fizeram mestrado em cinismo e PhD em hipocrisia.
- Veja bem, sou apenas um self made man.
- Faz qualquer negócio, inclusive colocar a filha rebolando na TV e administrar as campanhas antidrogas.
- "Tudo pelo social".
- Não tem similar!
No final das contas, o sábio e o aprendiz concluíram que, apesar das divergências, podiam perfeitamente beber alguma coisa para comemorar o reencontro - ou comer algo para bebemorar o ágape, como disse o outro. E caminharam pela Esplanada, absolutamente convencidos de que naquele cenário magnífico não lhes faltaria um parceiro para tomar uns gorós. Pois, como diria um metalúrgico no final do expediente, neste país ninguém é de ferro.
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