Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2005    
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Eletrônica Acústica



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas


A criação musical foi pioneira em incorporar inovações digitais - às vezes, contra a própria indústria, como no caso do combo entre arquivos de mp3 e redes p2p. Podemos ver nisso uma decorrência natural da intimidade entre o som e a matemática, como gostariam Platão e os astrofísicos medievais, que torna quase inevitável sua manipulação calculada.

Por outro lado, também é preciso culpar as dinâmicas específicas a que a música obedece, de transposições tonais e arranjos, onde sempre predominou uma espécie de pensamento sistêmico. Nada mais explica o surgimento de movimentos como o dodecafonismo e o minimalismo, bem antes que a lógica serialista por trás deles pudesse se espalhar por outras instâncias da cultura.

A partitura, forma clássica de escritura do som, já possuía uma latência típica de meios digitais: para que haja música, não basta que ela se relacione com um ouvinte ou com um dispositivo. A música é processual, e permanece suspensa entre o registro, o instrumento e o intérprete até que seja finalmente executada - da mesma forma que um software de computador.

Mesmo antes do aparecimento de tecnologias numéricas, as possibilidades de gravação e síntese eram realidades incorporadas à composição sonora. O movimento futurista do início do século passado já fazia uso do sampling, prática que se tornaria um dos pilares da gramática pós-moderna.

Assim, quando esses novos processos se alastram para outros meios, eles já estão contaminados. Nada mais natural do que levarem consigo os usos e costumes da produção musical. Foi por isso que sample se tornou um termo ecumênico, e a linguagem MIDI, originalmente criada para controlar instrumentos digitais, passou a ser utilizada por programas de edição de vídeo.

Há quem diga que a Internet recupera uma oralidade há muito perdida; que graças a sua fluidez e porosidade, o hipertexto esteja mais próximo da fala do que do texto impresso. Polêmicas à parte, é inegável que nossa cultura funcione cada vez mais próxima de um paradigma acústico.

É até inusitado ver a proliferação de coletivos de artes plásticas; artistas se organizando como as bandas de rock sempre se organizaram e achando isso a última revolução. Ou pensar que o VJing, uma prática tão parecida com a exibição cinematográfica, seja na verdade derivado da discotecagem.

É bem capaz que esse musicalização do pensamento seja somente um vício de interface, um atavismo que não faz mais que limitar nosso relacionamento com esses fantásticos brinquedos tecnológicos. De qualquer forma, me reconforta imaginar que o único jeito de fazer as máquinas criarem um novo mundo ainda seja ensinando-as a cantar.

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E-mails para o colunista: gabriel.menotti@gmail.com



 

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