O PT depois da queda




Geraldo Hasse


Gosto de trocar idéias com ex-petistas que deixaram o PT à medida que o partido galgava os degraus do Poder. Eles costumam fazer uma leitura inteligente do desgastante processo que resultou neste misto de desencanto e cinismo a que se entregaram tantos milhares de brasileiros, depois que os dirigentes do Partido dos Trabalhadores deram nova vida à personagem do Pinóquio, o bonequinho cujo nariz cresce a cada mentira.

Uma das explicações-chave para o fenômeno da transfiguração do PT é prática, "bem prática", argumenta um ex-petista que pulou do barco por causa da inveja das patrulhas ideológicas situadas dentro do próprio partido: nos anos 90, diz ele, os novos militantes que foram entrando no PT mostraram "uma postura mais pragmática e utilitarista", ao contrário dos fundadores-puro-sangue, que eram (são ainda, de certa forma) "mais ideológicos" - com a ressalva de que o conceito de ideologia desgastou-se depois da queda do muro de berlim.

Ao utilitarismo emergente, somaram-se (continua o ex-petista) "as inevitáveis necessidades de manutenção do Poder", dando como resultado "um governo conservador", para alegria da plutocracia que há séculos nos explora. "Sem falar que o Poder desencadeou uma série de projetos individuais de ascensão social", observa o amigo, lembrando de quantos militantes mal saídos da roça, do sindicato ou da faculdade perderam a humildade e subiram nas tamancas a partir de 2003, com a posse de Lula no Planalto.

Deu no que deu, o PT praticamente igualado aos outros partidos e Lula sozinho no palácio, sem Duda e Dirceu, os estrategistas (cada um a seu modo) de sua ascensão ao poder.

Agora que estamos no limiar de uma nova campanha eleitoral, vamos ter de encarar-nos no espelho distorcido de nossa vida pública, a TV. Sim, ela nos reflete - e como!

Pelo PSDB, veremos Serra ou Alckmin, já que Aécio Neves guarda-se para 2010.

O PMDB, tão cheio de caciques, talvez não consiga escolher um candidato melhor do que Garotinho, mas pode ser que suba um degrau e saia de Requião (se o Quércia deixar, claro) ou, então, venha de Rigotto ao molho pesto. Mas fica com esses pangarés quando poderia lançar na pista um puro sangue árabe - o Pedro Simon.

O PFL ensaiou a candidatura de Cesar Maia. Como o prefeito do Rio não decolou, o partido deverá pôr suas fichas em alguém de outro partido ou optar pela neutralidade.

Todos, naturalmente, estarão lutando para desbancar Lula, bastante desgastado, é verdade, mas ainda respeitável por seu indiscutível carisma. Resta saber se ele vai se licenciar para candidatar-se e o que fará o vice José de Alencar, que parece picado pela mosca azul.

Como empresário de sucesso, Alencar desfruta de admiração popular; como vice, tem sido um crítico contumaz da política de juros altos; como candidato potencial, deu o bote errado ao pousar num partido novo e sem lastro, mas ainda pode atrapalhar Lula, que certamente terá de procurar outro vice para compor sua chapa.
Diante da mesmice anunciada, a única novidade possível nesta campanha seria o lançamento de uma candidatura feminina. Mas quem depois que Roseana Sarney e Marta Suplicy se queimaram?

E olhe como são as coisas: as duas foram queimadas, coincidentemente, por José Serra, que vai para a pista muito mais forte, graças ao holocausto petista.

ghasse@th.com.br