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Foto: Divulgação
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| "O Diário Aberto de R."
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O último dia de exibição dos curtas em película dentro do Vitória Cine Vídeo, na noite de sexta-feira (2), apresentou a bela produção capixaba "No Princípio era o Verbo", além dos essenciais "O Diário Aberto de R." e "Entre Paredes". Confira a cobertura crítica da última sessão.
"O Diário Aberto de R.", de Caetano Gotardo
"Entre Paredes", de Eric Laurence
Como resolver em imagem idéias tão gerais e tão impalpáveis como o amor e a loucura? A matéria-prima de "O Diário Aberto de R." é este primeiro sentimento, e o curta paulista tenta a todo momento escapar das armadilhas comuns a ele. Para dar conta da relação platônica entre um colegial típico adolescente normal e seu colega de classe bonito e popular, o diretor Caetano Gotardo apela para o respeito absoluto à história e aos personagens. Esse respeito se traduz na câmera e nas imagens pelo tempo e pela seqüência de cada cena. Gotardo permite que os planos tenham a duração que precisam ter, não se apressa em cortes sucessivos ou em ângulos múltiplos. Um cinema de essencialidade da imagem, onde é dado a ela o direito de acontecer enquanto tal, e tirar dali suas significações (há um plano em particular que é primoroso nesse sentido: despedindo-se na rua, cada garoto segue o caminho de suas casas, e vemos através dos olhos do apaixonado o outro rapaz andar pela rua até que desapareça de vista: o tempo do plano é o tempo que o personagem do ator Fábio Lucindo precisa para ele aconteça).
"Entre Paredes" escolhe o caminho oposto. Ao contrário da extensão temporal, a palavra de ordem é a urgência. Ao contrário da auto-atribuição de sentido da imagem, é na perspectiva de preenchimento de significados através dos recursos exteriores disponíveis que o filme do pernambucano Eric Laurence opera. Filme-sensação (como o quase homônimo curta da noite, "Entre Um", de Marcius Barbieri), quer colar em si o mesmo tormento pelo qual passa o marido que, depois de descobrir/imaginar uma traição, toma uma atitude drástica de isolamento e proteção. Cada imagem tem uma emoção específica, devidamente reforçadas pela montagem e pela trilha sonora permanente de Nana Vasconcelos. "Entre Paredes" é, sem dúvida, um filme bem realizado, mas a soma de todos esses elementos, existentes unicamente para sublinhar (e em certos casos, forçar) uma sensação específica acaba não abrindo nenhum espaço para o espectador entrar nesta roda de loucura do protagonista. A imagem já "quer dizer" tudo, e aquele que não embarcar nela sem restrições ou questionamentos pode se dar conta que não há lugar para mais nada além dessa adesão automática e esvaziada de crítica.
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Foto: Divulgação
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| "Entre Paredes"
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Os demais filmes da noite se notabilizaram por cumprirem à risca suas propostas, o que pode gerar algo bem positivo ("Ímpar Par") ou não ("Red"). O curta capixaba "Lita" sofre dos mesmos problemas do trabalho que Gui Castor apresentou na mostra de vídeos, o filme morre no seu tema, e cheio de possibilidades (no caso, a relação entre o cotidiano de uma dona-de-casa e a memória), acaba não dizendo a que veio. "Descobrindo Waltel" cumpre o que propõe desde o título: apresenta ao espectador o grande músico Waltel Branco, mas falta-lhe a ousadia e a liberdade que tem "Viva Volta", outro filme exibido no Festival com proposta rigorosamente idêntica (fazer conhecido um músico que não tem seu valor devidamente notado). "Mora na Filosofia" fica mais na vontade de articulação entre o discurso platônico e a encenação desse discurso nas situações que apresenta do que na real concretização dessa ponte. Por vezes cai no simplismo das correspondências entre a televisão e a caverna de Platão, ou então quando justifica toda a loucura do filme com a cena final do protagonista fumando maconha. "Red" é daqueles filmes pop cuja única razão da existência se resume à exibição modernosa. O filme trabalha o tempo inteiro para poder fazer valer a frase final, retirada do conto de Chapeuzinho Vermelho ("E o lobo se atirou sobre Chapeuzinho e a comeu"). Tornar a frase literal, e mostrá-la em todo seu grafismo, é a única tarefa a que o curta se propõe. "Ímpar Par" sai-se muito melhor. Filiado àquele tipo de fabulação tão presente no cinema (de "O Mágico de Oz" à "Chocolate", no que esses dois extremos tem de diferentes), é um primor de realização. A história se vale das maquinações do protagonista, um sapateiro cheio de convicções sobre sua "arte", para se aproximar de sua amada. Apoiado sobretudo na belíssima trilha sonora, "Ímpar Par" é um produto estranho dentro desse festival: não pretende nenhuma elucubração profunda, não é nenhum experimento, não caminha numa simplificação de meios. É cinema bom para os olhos e bom para a alma. Pode até não ter a permanência de outros trabalhos mais pungentes, mas faz um bem danado ao estado de espírito de quem assiste.
[Confira a análise dos curtas "Biografia do Tempo", de Marcos Pimentel e Joana Oliveira, e "No Princípio Era o Verbo", de Virgínia Jorge, na seção Destaque do Hot-Site]
[Confira a análise final do VCV dentro da coluna de cinema, na capa do Caderno Atrações]
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