Vitória (ES), edição de 16 de dezembro de 2005    
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Assim os deuses são feitos



Vítor Lopes
Fotos: Rodrigo Melo (veja mais em www.fotolog.net/rodamelo)


Tinha algo de diferente naquela quinta-feira, dia 8. Para uma cidade sem muitos atrativos culturais, até que Vitória estava movimentada. Lançamento de livros, peça de teatro e alguns concertos musicais. Na entrada do bairro mais nobre da Capital, mais exatamente numa loja recém-inaugurada que vende produtos para a saúde dos pés, o músico Derico - programa do Jô - anima o rega-bofe de grã-finos capixabas. O espaço é pequeno, muitos garçons e pressa para pegar a taça de vinho.

Nem tão longe dali, nada daquela conta de um garçom para cada 20 pessoas. A devoção passa por cima disso. Na verdade, a expectativa reúne olhares devotos de mais de oito mil pessoas para somente duas. E nem é necessário chegar tão perto dos deuses assim. Basta olhá-los para as lágrimas e os cantos começarem.

  

  
A vendedora de lanches Rosa Maria dos Santos
Na entrada do que podemos chamar de templo por um dia, muitas barraquinhas para vencer a fome dos fiéis. Enquanto uma moça pergunta ao cambista quanto custa a "passagem para o céu" - e a resposta indicava um superfaturamento de 200% - o olfato se movimenta: purê, empadão, pizza, salsicha, destilados, chá e doces de diferentes gostos e origens.

O espaço para as barraquinhas de alimentos está disputado. Rosa Maria dos Santos, 55 anos, e seu noivo - "ainda estamos apaixonados" - Antônio Sarmento, 52, demoraram mais de uma hora para chegar ao local do evento. Entre ervilhas, cenouras, ovos de codorna, maionese, milhos e enquanto fritam um hambúrguer, dão uma espiada na imensa fila e arranjam tempo para comentar.

"O ´quinem` - o que nem um carro -, quase não chegou aqui. Por pouco não quebrou na avenida. Mas como não tenho emprego fixo, tenho de dar meus pulos", comenta dona Rosa, como prefere ser chamada. Há 10 anos como ambulante, nesta noite de louvor ela pretende vender uns 50 lanches.

  

  
O cervejeiro Che Brasileiro
A fila aperta, o guarda já não consegue mais controlar o trânsito. Enquanto camelôs vendem CDs e DVDs dos donos da noite a preços populares, a moça arrumadinha passa com o ingresso especial nas mãos e questiona aos céus: "Será que tenho de enfrentar essa fila toda? Nem Deus merece!".

Mesmo sem enfrentar a multidão, durante uma venda e outra de cerveja, Adelson Mariano - "o Che Guevara negro brasileiro! Isso eu sou!" - reflete sobre os 20 anos que já tem de comércio informal. "Tiro R$800 por mês fazendo isso. Mas eu não gosto muito deles não. Sou mais outros Zés, o Zé Ramalho e o Zé Geraldo. E anota aí: ser honesto no Brasil é uma vitória. É melhor que ganhar a Copa", esbraveja o socialista menos conhecido. Ele tenta a sorte no portão de acesso especial para aqueles com convites vips. Nenhum ocupante de carro importado que passa por ali pretende comprar cerveja com ele - e olha que o Che ainda oferece guardanapo para limpar a latinha, caso o consumidor desconfie da procedência ou da higiene.

  

  
O casal Hermes da Fonseca e Creuza Maria Prati
A chuva está a cair. A fila consegue entrar no ginásio, agora lotado, sem espaço para nenhum atrasado. Hermes Vieira da Fonseca e Creuza Maria da Silva Prati entram quase na hora do início do show e não conseguem uma visão muito boa do altar, que neste momento está fechado com uma cortina escura. "Será que vai dar para ver alguma coisa?", indaga Creuza a este repórter. Digo que não sei e aproveito para perguntar quantos discos da dupla que irá se apresentar logo mais ela tem. "Uns 10". Originais? "[pensativa e sem graça] Sim, mas também tenho muita coisa no computador". Assistiram ao filme mais visto do ano no Brasil? "Em DVD e já tem tempo", afirma Creuza. Mas o original foi lançado só hoje, comento. O marido Hermes interrompe a conversa. "Foi um amigo que deu para a gente. Mas também nem sei quanto custou", finaliza a conversa.

  

  
O vendedor de churros Sebastião Garcia
Enquanto o casal une suas mãos à espera do início do que podemos chamar de um verdadeiro mega-culto, Sebastião Garcia, 50 anos, aparece com uma bandeja repleta de churros. Com pressa, só consegue dizer o nome completo e o quanto espera vender na noite. "Ah, menino! Cerca de 200 churros. Mas ganho só R$60. Eles lá que vão ganhar muito", comenta apontando para o palco.

Seu Sebastião tenta vender seu produto para quatro jovens vestidos à moda country. Márcio Bellotti, Sérgio Bellotti, Renan Pretti e Lígia Bellotti. O primeiro abre o sorriso para falar do show que está prestes a acontecer. "Vai ser maravilhoso". E olha para o repórter cantarolando : "você vai veeerrr!!!". Os parentes concordam.

É só a cortina do palco tremular para o ginásio virar uma massa sonora. O som abafa a propaganda oral dos vendedores de faixas (R$1), pulseiras (R$3) e fotos (R$2). Sem querer revelar o sobrenome, o vendedor Wellington desaparece no meio da multidão. "Não dá para conversar, tenho de ganhar a noite...".

  

  
A fã Eva da Cunha
Após comprar uma faixa de cabeça com o nome dos responsáveis por reunir toda aquela multidão, a aposentada Eva da Cunha segura o repórter pelo braço, olha para o fotógrafo e implora entre soluços: "Vocês são minhas únicas esperanças. Nem na dupla mais eu tenho força. Eu preciso que vocês me levem ao camarim!". Ela só consegue falar em tudo que já comprou com a marca deles, de calça jeans a toalha, passando por gel para cabelos. "Hoje eu liguei 139 vezes para a rádio. Só me resta vocês", sonha Eva.

A ilusão com a possibilidade de acesso mais fácil toma conta de uma outra fã. "Pelo amor de Deus! Descubra se os dois receberam as 500 cartas que eu escrevi ontem para eles", se agarra, em prantos, Juliana Martins, 19 anos.

  

  
O fã-clube envergonhado
A euforia do público que está na arquibancada não é tão contida como a daqueles que estão nas mesas especiais, bem próximos do palco/altar. Um fã-clube com apenas dois anos de formação reservou a mesa número 1 para poder ficar o mais perto possível. "Nos reunimos no último show deles aqui e seguimos a dupla por todo o País. A gente gasta muito dinheiro com eles, principalmente com presentes", afirma Maria Cristina dos Santos, a líder de 15 outras fãs, enquanto vigia dois embrulhos que guardam quadros, placas e fotos. Questionadas se ela mesma entregará os presentes, pondera: "Nunca estivemos com eles. É um sonho. Mas não quero forçar nada, para não sermos chamadas de chatas".

A cortina tremula. As luzes se apagam. O público enlouquece. No telão, trailler do filme que conta a história da dupla com trechos das músicas mais conhecidas. Milhares de pessoas cantam uníssono. Quando os deuses entram no palco, a gritaria abafa o hino principal daqueles fiéis, "É o Amor". E assim segue por toda a apresentação.

  

  
Dona Rosa continua lá fora, esperando o fim do show para poder vender um pouquinho mais de lanche. Ela continua com dores nos pés, sem dar a mínima para o Derico e sonha em um dia poder encontrar os seus deuses, que para ela - e para milhares de pessoas naquela noite -, respondem pelo nome de Zezé di Camargo e Luciano.

E-mails para o colunista: conexao021@gmail.com


 

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