Uma simples questão de incompetência




O delegado Rodney Miranda caiu porque não teve competência para enfrentar os problemas da segurança pública no Estado. E isso não pode ser motivo de comemoração.

Laboram em erro os que se consideram vitoriosos com a queda. Eles, na verdade, faziam campanha contra Rodney por motivos subalternos - corporativismo, despeito, interesses contrariados e por aí vai.

Século Diário combateu a atuação de Rodney, com veemência e ênfase, logo que se constatou não ter ele um plano estratégico de combate a essa onda de violência que vem colocando o Estado no topo das ocorrências policiais e mantendo-o numa desconfortável e inaceitável tradição de impunidade.

Sob o comando de Rodney, a segurança pública no Espírito Santo esteve sempre subordinada aos acontecimentos. Reclamava-se da criminalidade em determinada área - em função das estatísticas oficiais - e lá vinha Rodney anunciando medidas pontuais.

Reclamava-se da impunidade nos crimes de grande repercussão, e lá vinha o homem que ele colocara à frente da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o delegado Danilo Bahiense, prometendo intensificar as investigações e a punição dos culpados.

Nada se concretizava. Ficava tudo na retórica. E planejamento, que é bom, nenhum. Não se combate a criminalidade com voluntarismo - esta é e sempre foi a nossa tese.

As investigações em torno do assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho foram a mais cabal demonstração de que a polícia comandada por Rodney Miranda não tinha condições de atuar com competência, isenção e independência.

Quantos delegados,, depois de indicados, desistiram de presidir o inquértio referente a esse crime? Vários deles, que não encontraram sustentação na tese do crime do mando - defendida ardorosamente pelo Ministério Público Estadual e encampada pela polícia sem qualquer base nos fatos - nem apoio da cúpula para dar novo rumo às investigações.

Era preciso, a qualquer custo, levar a julgamento os executores confessos do crime e os supostos mandantes e intermediários como envolvidos num crime de mando. A tese de latrocínio não deveria ser sequer considerada.

A delegada Fabiana Maioral, que aceitou a difícil tarefa de provar o mando, conseguiu reunir indícios que mostravam ter havido algo como uma conspiração para liquidar o juiz.

Era óbvio que Alexandre Martins estava marcado para morrer. E que o crime organizado muito provavelmente estaria tramando sua morte. Alexandre era um homem destemido e determinado a varrer os corruptos do Judiciário. Armado de uma pistola cedida pela Polícia Militar, e sem contar com uma segurança oficial permanente a seu lado, foi à luta confiando unicamente em sua coragem.

Na manhã em que foi assassinado, o destino colocou-o frente a frente com dois bandidos pé-de-chinelo que queriam tomar-lhe o carro. Reagiu como se esperava, empunhando sua arma e enfrentando os assaltantes. Perdeu - a vida e a pistola que empunhava.

Perícia técnica derrubando a tese do mando não foi levada em conta. A denúncia dos executores de que haviam sido torturados pela equipe de Bahiense para confessar o mando foi motivo de chacota na cúpula da polícia.

Não havia como aceitar o fato como incidental. Do contrário, ficaria comprovado que no Espírito Santo ninguém está a salvo da violência, nem mesmo juízes de direito - mesmo aqueles que desafiam o crime organizado. Ora, se nem mesmo um juiz está a salvo da bandidagem, que dizer dos cidadãos comuns?

Os fatos constantes de nossa primeira matéria sobre o grampo na Rede Gazeta deixaram bem claro que esse lamentável episódio acabaria por comprometer o julgamento dos que foram envolvidos como mandantes ou intermediários do suposto mando. E nessa direção foi feita a nossa manchete.

Não poderia ser de outra maneira. As investigações do assassinato de Alexandre Martins são um amontoado de ilegalidades e afirmações desprovidas de fundamento. É com base nessas gritantes deficiências processuais que a defesa vai buscar a anulação das sentenças proferidas e que ainda não transitaram em julgado.

Responsável por tudo: Rodney Miranda. Co-responsáveis: os membros de sua equipe. Motivo: incompetência. E ponto final.