Só dói quando eu vivo





Tavares Dias


Doem-me dores tão doloridas, às vezes, que, como na "Primeira canção da estrada", de Sá e Guarabira, "parece que eu estou carregando os pecados do mundo".

Dói-me sobretudo, como de resto em todas as outras pessoas capazes de a sentirem, a dor da existência, da convivência com nossas necessárias imperfeições, com a percepção da inevitável finitude que o nosso ego não engole, com aquela certeza que, driblando nossa vaidade e nosso orgulho, nos diz que o Universo não atrasará sua marcha uma única fração de segundo quando daqui nos formos, chegada a hora de entregar o óbolo ao barqueiro. Por mais brilhantes que sejamos, na melhor das hipóteses iremos reforçar o enorme time de insubstituíveis que lota os cemitérios do mundo inteiro.

De permeio, tem a danada da dor das incompetências afetivas, dos desencontros, das dificuldades com esse estranho ser chamado o outro, com seus desejos, seus quereres, suas fragilidades, sua peleja, seus talentos e suas dores.

Mas há que doer, mesmo. Porque seres imperfeitos só atingem o amor através da dor. Pensem, a cara leitora e o caro leitor, se não é verdade que a cada vez que cresceram um pouco, que venceram um desafio, que subiram mais um degrau, que desarmaram um pouco mais o coração, se não foi na porrada, se lá por detrás não estava, de plantão, de ferrão na mão feito os antigos carreiros, os tocadores de carros de bois pelo poeirão vermelho das velhas estradas de terra, nossa velha e incansável mestra, a dor.

Só para especular: quanto faltará para que sejamos capazes de aprender pelo amor, sem tomar da vida um só esbarrão, nem empurrão, nem ferroada, nem ter de amargar perda de qualquer tipo?

Quando é que seremos capazes de atingir o sim sem passar pelo não, de vivenciar o sorriso sem antes precisar experimentar os esgares, os espasmos, os ríctus, as convulsões, as desarmonias, as arritmias e tudo o mais que faz com que, uma vez recuperado o ritmo, a harmonia, a paz, possamos entender a importância da dor que, na maioria das vezes, nós mesmos é que nos infligimos, com nossa falta de sabedoria?

A maioria de nós não precisa de um único inimigo. Temos, dentro de nós, mecanismos de desamor tão fortemente arraigados que, à menor ameaça de felicidade, somos capazes de disparar contra nós mesmos todo o nosso potente arsenal de sabotagens e de infelicitações. Somos capazes de nos prover de todo o mal de que necessitamos para lá na frente, após termos tugido e mugido feito um boi no tronco, sermos capazes de enxergar o Bem, dentro e fora de nós.

E assim seguimos, sujeitos. Sujeitos a trombadas, a escolhas equivocadas, a fingir que não vemos o perigo que nos ameaça, a fazer de conta que não é ameaça a ameaça que está debaixo do nosso nariz. Seguimos sujeitos, e também objetos, de nossa própria história. E é por isso que dói.

Porque se não fôssemos sujeitos não seríamos nada. Como não o são, ou só são aquilo, aqueles que não distinguem o dia da noite, o certo do errado, a sombra da luz, a saúde da doença. Aqueles assim não sentem dores da alma. E é comum que a gente sinta uma dor danada por eles serem daquele jeito, principalmente se temos com eles algum laço afetivo forte.

Por isso aquele título lá em cima - só dói quando eu vivo. Porque para sentir dor é necessária a existência dessa maravilhosa coisa chamada vida, com seus tão diferenciados momentos, com suas dores mas também com essa coisa mágica chamada alegria, ufa, que maravilha, aaaahhh!

E não me dói nada dizer, contente, que este texto foi inspirado na crônica "Só mia quando eu respiro", em que o jornalista e escritor Roberto Lima, diretor do Brazilian Voice Newapaper (www.brazilianvoice.com), jornal brazuca lá dos EUA, conta suas pelejas contra as rabugices de uma bronquite que às vezes lhe aporrinha um tanto o viver.

Enquanto estivermos respirando, portanto vivendo e sendo sujeitos, vai doer, uma coisa ou outra. Sempre haverá um buraco, uma falta de alguma coisa; é do jogo de ser do ser humano. Mas, como sabemos, para ser feliz é preciso estar vivo,

Enquanto não atingirmos a sabedoria, nível de crescimento para o qual não existem livros nem cursos, a dor seguirá sendo nosso mais eloqüente sinal de vida.