Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2005    
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Minhas sinceras desculpas



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas


Minha namorada me pergunta se o texto sobre o FILE não estava muito empolado. "Você já viu como o Rodrigo escreve?", respondo. Não, ela não lê as colunas. Nem a minha. Só quando eu peço muito, imploro de chorar, compro anéis de brilhante.

Faz dela muito bem. Leitores mais atentos (familiares com Tolstói, Pynchon, Anatole; não vocês, que matam tempo de trabalho passeando por jornaizinhos online), enfim, leitores de verdade já teriam percebido que essa coluna é um grandessíssimo engodo, e aqui pouco se fala sobre cibercultura, gambiarra ou em qualquer outra modalidade.

Ultimamente, tenho fantasiado que recebo terabytes de email de gente indignada, só a nata da tradição-família-propriedade brasileira, perguntando com o dedo apertado no shift E O PIERRE LEVY?!1! ou COMO É QUE FAZ ANIMAÇÃO EM FLASH?!1!!?

Não quero enganar ninguém. A culpa vem de cima; foi o editor que me proibiu de chamar essa coluna de "cybercultura gambiarra e lixo pop" - como se eu fosse uma mãe infeliz, que quisesse registrar o filho como Adolfo Hitler ou Um Dois Três de Oliveira Quatro.

Pois ao optar pelo minimalismo editorial (afinal, lixo pop é, de certa forma, o tema de todos os outros colunistas) esse sensato senhor de suspensórios reduziu em 100% meu campo de ação retórico (porque eu nunca pensei em falar sobre cybercultura, mesmo).

Dia desses, ele veio me dizer que sexo vende. Que foi só fazer uma coluna chamada Sexo nos Videogames e o número de page hits aumentou escabrosamente. Eu acho que não, acho que o que atraiu público foi o videogame. Videogame pode não ser Pierre Levy, mas pelo menos liga na tomada.

Mas eu prometo, ainda vou falar de cibercultura. Vou mesmo. Juro. Vou falar tanto que o Google vai encher isso aqui de anúncios do laptop de U$ 100 e computadores Positivo.

Até lá, enquanto isso, lixo pop:

DESPEDIR-SE DE TÓQUIO

Também a viagem começa
de um lado e termina
do outro -

a doença: fotografia
de dias terríveis
que, como amigos, passamos
entre animais de papel
e néon.

Chega a noite e ainda ouço
o uivo mouco de cavalos
aflitos, que pastam sem
trégua pelo telhado;

o bom senso me diz que talvez
seja a chuva. Talvez

sejam fogos que
estouram na cobertura
e seria melhor voltar a dormir.

O zodíaco abre seu zíper
e deixa cair farelos
no asfalto;

procissão de automóveis.

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E-mails para o colunista: gabriel.menotti@gmail.com



 

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