Significados do grampo




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

A prática do grampo no telefone da Rede Gazeta de Comunicações, no Espírito Santo, é uma brutalidade. Como tal, tem que ser mesmo repudiada, além de apurada.

Inúmeros ângulos do problema estão sendo bem focalizados pela cobertura do fato na mídia: ataque frontal à democracia; invasão de privacidade; afronta aos direitos humanos; quebra de proteção do sigilo das fontes no jornalismo. E outros.

Dentre tantos ângulos do mesmo problema - o problema da banalização da interceptação telefônica indevida ou ilegal - , merece a nossa atenção o fato de que, no Espírito Santo, este problema pode estar sendo perpassado, e acentuado, pela prática política do maniqueísmo. Explico-me.

O maniqueísmo e a "fulanização" têm-se acentuado na política capixaba. Como o estado do Espírito Santo vivenciou uma longa escalada do crime organizado e uma acentuada desorganização e fragilização de suas instituições públicas, os atores políticos adotaram, como postura e táticas políticas, a divisão da política entre "o bem", de uma lado, e "o mal", de outro lado.

Este maniqueísmo, às vezes a serviço do marketing político, produz, no tempo, o caldo de cultura para estas ações como a do grampo à Rede Gazeta de Comunicações.

Em nome "do bem", derruba-se o princípio jurídico da presunção da inocência. Em nome "do bem", banaliza-se o uso (generalizado) da escuta telefônica. Em nome "do bem", acelera-se a predominância, no corpo social, do Big Brother a la Orwell. Em nome "do bem", ainda, é reforçada a cultura da maledicência na política, classificando-se os cidadãos por categorias: os "do bem" e os "do mal".

No final das contas, uma espécie de conluio pelo bem acaba produzindo e construindo o mal. Em nome do bem, os do bem são puros e podem fazer mal aos que são do mal. Em nome do bem, os do bem acabam atingindo os do bem. Como no caso do grampo à Rede Gazeta. Daí, já não se sabe mais quem é "do bem" e quem é "do mal"...

Neste momento, o sentimento de insegurança foi aguçado. Pois quem grampeia também pode estar sendo grampeado. Com a generalização (provável) do grampo, impera, portanto, a tendência à ausência do Estado de Direito. E, como se sabe, fora do Estado de Direito, não há salvação.

Como se diz no popular: está dando efeito bumerangue na luta do bem contra o mal.

Do ponto de vista sociológico, trata-se de um efeito perverso na ordem social, nos termos descritos por Raymond Boudon: são efeitos "colaterais", ou parasitários, engendrados pelos agentes sociais de forma inadvertida, na busca da realização dos seus objetivos (a poluição é um exemplo clássico, revelador do fenômeno dos efeitos perversos).

Resumindo o seu conceito, Boudon assevera que há efeitos perversos quando dois indivíduos (ou mais), que buscam um dado objetivo, geram um estado de coisas não buscados e que pode ser indesejável do ponto de vista seja de cada um dos dois, ou de apenas um deles.

Este fenômeno do efeito perverso pode vir a corroer a política capixaba por dentro e, mais do que isto, afetar a micropolítica e as micro-relações espraiadas pela sociedade local. Na luta do bem contra o mal, pode-se gerar uma prática política da destruição "do outro" e uma inversão de valores, uma espécie de impunidade às avessas. Aí, como nos filmes de James Bond, outorga-se uma "licença para matar" (neste caso, no sentido figurado da destruição "do outro" na política...).

Se, na prática política, "o outro" é sempre visto como "do mal", gera-se, aí, condições sociais e culturais para a política das panelinhas e dos grupelhos, onde o mundo é sempre enxergado em preto-e-branco.

É a política feita com o fígado, e não com a negociação e a persuasão. Na sabedoria da música "rap", se diria: isto é very bad brother.