Nos tempos do Fodião





Tavares Dias


O Governo do Estado do Espírito Santo dispõe, já faz um tempo, de um aparelho de escuta telefônica intitulado Guardião. Dizem que pode grampear até 400 conversas telefônicas, simultaneamente. O assunto começou a surgir em rodinhas, em notinhas de jornais, foi tomando corpo, tomando corpo. Tentou-se mesmo emplacar, na Assembléia Legislativa do Estado, uma tal "CPI do Grampo" - que até agora tá no vai não vai-, na suposição de que o Governo pudesse estar utilizando o tal Guardião para bisbilhotar conversas de adversários políticos.

Por conta disso, recentemente as autoridades convocaram a imprensa para explicar o que é o tal mostrengo que a população, na sua implacável mordacidade, já apelidou de "Fodião". E aqui é necessário explicar, para as pessoas de outros estados brasileiros, que o tal adjetivo, um tanto chulo, é utilizado no Espírito Santo para designar pessoas do sexo masculino supostamente capazes de grandes performances sexuais. Existe no feminino, também, mas vamos deixando assim, em benefício da leveza.

Pois o Governo explicou então que o digamos, Guardião, é utilizado exclusivamente para gravar conversas de pessoas cuja quebra de sigilo telefônico tenha sido autorizada pela Justiça. Tudo no estrito interesse público: o combate ao crime organizado. A traquitana seria capaz de gravar as conversas em cd, mas em código, de modo que nem seus operadores nem possíveis arapongas capixabas pudessem conhecer as informações ali contidas. Acesso, pois, exclusivamente reservado à Justiça.

"Ufa", alguém pode ter suspirado, aliviado, nesses tempos em que no país da grampolândia o noticiário é recheado de políticos em pânico, mensalão, dinheiro não contabilizado, carreiras e ídolos de pés de barro desmoronando, mulheres revoltadas ou dissimuladas, um joga-josta geral no Congresso, secretárias recém-tornadas estrelas das manchetes. "É o fim do mundo. Já nem se pode pular a cerca em paz", houve quem chiasse.

Pois o Fodião, vejam vocês, tem sido capaz de gerar uma cultura de sigilo e de despiste que, levada a extremos, vem fazendo o capixaba vivenciar situações hilárias e patéticas, como abaixo se verá. Os relatos são de três cenas supostamente passadas em Vitória.

Verdade ou mentira, de graça me vieram e de graça lá vão, cara leitora e caro leitor:

Cena 1:
Trim.
-Alô.
-Gervásio?
-Não. Jo... digo, sim, Gervásio. Tudo bem, Geraldina?
-Ai, Gervásio, que coisa horrível a gente precisar se comunicar assim. Tem certeza de que esse Fodião existe?
-Claro que eu existo, meu bem. Cê tá delirando?
-Ah, José, digo, Gervásio, tá vendo que horror? A gente nem se entende mais.
-Quando é que a gente se vê, Geraldina?
-Quer saber mesmo, José dos Anzóis Carapuça, casado e safado, traidor da sua mulher, Glorinha, aquela perua, funcionária da repartição tal? Nunca mais. Geraldina é a sua mãe, viu?
Tuntuntuntuntuntum.

Cena 2:
Trim.
-Alô.
-É o Mário.
-Que Mário?
-Tá louco, meu irmão? Que papo de que Mário é esse? Quer que eu diga que foi aquele que te faturou atrás do armário? Acorda, ô mané. Cê num falou que era pra eu me identificar como Mário, por causa do Fodião, quando fosse a hora de avisar que o bagulho chegou?
-Que bagulho, cara, tá doido? Eu lá sou homem de mexer com bagulho?
-O bagulho, seu mané, é a sua sogra, que chegou do interior. Tá na rodoviária, te esperando, seu paranóico. Eu até ia lá, no meu carro, buscar aquele encosto pra você, mas não vou mais. Tchau!
Tuntuntuntuntuntum.

Cena 3:
Trim.
-Alô.
-Afrânio?
-Eu.
-É Ritinha.
-Oi, Ritinha. Tudo bem?
-Tudo bem. Só que vocês esqueceu de mandar a merenda.
-O quê? Merenda? Que merenda? Rita? Que Ritinha?
-A merenda, Fran. O lanchinho. E você não disse pra eu me identificar como Ritinha, por causa do F... digo, Guardião?
-Que lanchinho, dona? Eu nem conheço a senhora. Que negócio de lanchinho é esse? Tá querendo me incriminar a mando de quem? Não tá vendo o tanto de gente que já entrou em cana por causa disso?
-O lanchinho das crianças, seu palhaço. Tá na hora de levar os moleques pra escola e eu tô dura. Ah, e quer saber de uma coisa? Vai pro inferno. De noite, em casa, a gente conversa. Ou melhor, não conversa. Vai dormir com o Fodião. Tchau.
-Mas...
Tuntuntuntuntuntum.
E assim vamos trabalhando duro e tocando a vida, nesta delícia de ilha do Atlântico Sul.