Um canto de Natal





Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA

Laura adora o Natal, não por causa dos presépios e das árvores enfeitadas, que Laura não gosta de culturas impostas ou importadas. Também não é por causa dos presentes, que Laura não dá nem recebe, não por convicção, mas por falta de alguém especial. Claro, não se inclui aqui o troca-troca obrigatório do amigo urso no escritório, que não indicam afeição.

Também não considera presente uns brigadeiros que a vizinha lhe mandou porque os filhos fazem muito barulho e Laura não reclama no condomínio. Troca de favores não se considera presente. Mas Laura ama o Natal assim mesmo, por causa das músicas. Música de natal e neve caindo combinam tanto quanto pipoca e guaraná, goiabada e queijo, menino e menina.

Mas muitos natais se sucedem, solitários, e Laura não achou sua "outra metade," aquela parte perdida em algum lugar no mundo que combinaria com ela. Claro, já perdeu as esperanças e aceitou sua vida solitária que procura encher do melhor modo possível, para que a ausência desse desconhecido imaginado não pese tanto.

Esse ano os filhos da vizinha tocam o jingle-bells sem parar. A loja em frente do escritório toca vezes seguidas o Noite-Feliz, feliz pra quem? Laura se dá de presente um cd, As melhores músicas de natal de todos os tempos. Sua preferida é o Natal Branco, na voz de Bing Crosby, que ninguém mais lembra que fazia dupla com Bob Hope.

Laura entra na lanchonete da esquina e compra um panetone, um frango assado e um pacote de nozes. A noite de Natal pode ser bonita, imaginando uma paisagem branca onde aquela outra metade que nunca encontrou se aquece - também solitário - em frente de uma lareira. Talvez ouvindo o Natal Branco na voz de Bing Crosby.

Mas um som diferente se interpõe à música; Laura finge não ouvir, mas os gemidos ficam mais fortes. Laura abre a porta e vê a grávida do terceiro andar, quase uma menina, caída no corredor. É tarde e o prédio está quase vazio, Laura tem que chamar um taxi para levá-la ao hospital.

A vizinha já havia lhe contado que a menina, talvez 15 anos, diarista do terceiro andar, estava grávida, não sabia quem era o pai e não queria saber da criança. O interno de plantão vem dizer que nasceu mais um menino nesse mundo tão necessitado de milagres. Talvez os anjos que zelam por essa noite branca finalmente tenham mandado um presente para Laura...