Vitória (ES), edição de 22 de dezembro de 2005
 

Entidades temem efeitos de pólo siderúrgico em Ubu


Ubervalter Coimbra


"Não há nenhuma sustentabilidade em projetos desta natureza. E está provado que são as microempresas que geram emprego". A declaração é do empresário da área de turismo, Júlio César Gomes Barreto, coordenador do Fórum Permanente de Defesa de Meaípe, ao se manifestar sobre o anúncio da criação de um pólo siderúrgico em Ubu, na divisa de Anchieta com Guarapari.

O anúncio de que a CVRD vai construir quatro usinas de pelotização em Ubu foi feito nesta terça-feira (20) pelo governador Paulo Hartung, que tinha a seu lado o presidente da empresa, Roger Agnelli. Na ocasião o governador anunciava a construção da Variante Litorânea Sul, um segmento da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFMV) à Ferrovia Centro-Atlântica (FCA).

A CVRD já pediu licença ambiental para a construção da oitava usina de pelotização em Tubarão, e é sócia igualitária na Samarco Mineração, em Ubu. A Samarco está construindo sua terceira usina de pelotização na região. Desta forma, de início, o pólo siderúrgico do sul do Estado já começará com sete fábricas.

Na região também será construído um pólo petroquímico, puxado por uma refinaria de petróleo, como quer o governo. Além da ferrovia, para viabilizar estes pólos e já assegurada, será necessária também a ampliação do porto de Ubu.

É sobre estes projetos que se manifestou Júlio César Gomes Barreto. Ele lembra que o Fórum Permanente de Defesa de Meaípe está em alerta e discutirá os projetos, que considera, vai acabar com o turismo na região. E modificará a área do ponto de vista ambiental.

Diz o empresário: "O governo anuncia o pólo petroquímico a ser criado com os árabes. E agora, o pólo siderúrgico. Todos os que investiram em Meaípe, Guarapari e em Anchieta pensando em turismo terão que desfazer de seus negócios. Vão perder seus investimentos".

Júlio César Barreto conhece bem o processo de favelização na região, particularmente em Guarapari. Não tem dúvida de que haverá novas favelas, e mais desempregados, tão logo a fase de construção civil dos projetos sejam concluídos. "As grandes empresas terceirizam ou quarteirizam a mão-de-obra. Buscam operários, principalmente no Nordeste, e não vão devolve-los. Simplesmente os demitem. Estes que se virem".

Ele aponta que a geração de trabalho e de riqueza ocorrem, mesmo, no desenvolvimento da pequena empresa. As grandes corporações têm suas sedes, onde aplicam seus lucros, fora do Estado e do País.

O Fórum Permanente de Defesa de Meaípe vê, além do agravante na parte social na região sul, os problemas ambientais que serão gerados. Hoje, quando há vento sul, o ar em Meaípe já fica irrespirável pela poluição provocada pela Samarco Mineração. Com suas duas usinas, a Samarco produziu 13,3 milhões de toneladas de pelotas e finos de minério em 2003. A 3ª usina produzirá 7 milhões de toneladas anuais.

Ambientalistas - Segundo Renato Sabbah, do Grupo de Apoio ao Meio Ambiente (Gama), ONG com sede em Anchieta, os ambientalistas da região estão observando os anúncios sobre os novos projetos industriais e vão analisá-los.

"Não estamos preocupados se as empresas vão ganhar ou não muito dinheiro. Estamos preocupados com a vida humana. Vamos buscar mais informações e não conhecemos nenhum estudo de impacto ambiental desses projetos na região. Estamos com o pé atrás", afirma o diretor do Gama. Ele informou que vai buscar ajuda de outras ONGs capixabas para avaliar os impactos ambientais dos novos projetos para o sul do Estado.

O Grupo de Apoio ao Meio Ambiente criticou o licenciamento da 3ª usina da Samarco Mineração, afirmando que a empresa não cumpre condicionantes ambientais, como o monitoramento da emissão de poluentes em seu porto, em Ubu. Na ocasião, o Gama assegurou que a lagoa Mãe-Bá está funcionando como uma etapa de tratamento de detritos da empresa.

E que a Samarco foi multada primeiramente em R$ 1 milhão e, um mês depois, em R$ 3 milhões por poluir com minério a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guanabara, na praia do Além. Os poluentes causam danos incalculáveis ao mar. A empresa voltou a poluir a região este ano.

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