Entre o "King Kong" lançado agora nos cinemas do Estado e o original de Merian C. Cooper e Ernest B. Shoedsack lá se vão mais de 70 anos de distância e quase uma hora e meia de diferença na duração. Esses dois dados são fundamentais na estrutura do filme que o diretor Peter Jackson nos apresenta. O primeiro deles dá conta da exuberância dos efeitos especiais desta nova versão, que conseguem se destacar mesmo numa época em que nenhuma estripulia digital parece surpreender mais - no trabalho iniciado com a trilogia "O Senhor dos Anéis" e que alcança em "King Kong" seu auge, pode-se dizer que Jackson tira o fôlego do espectador dos anos 2005 da mesma maneira que Cooper e Shoedsack fizeram com as platéias de 1933. Um dos motivos apontados pelo próprio diretor, nas entrevistas de lançamento, para ter embarcado no remake de um clássico tão conhecido como Kong é justamente o mundo de possibilidades que as novas tecnologias do cinema abririam numa história que tem uma ilha esquecida e macabra, muralhas gigantescas, uma tribo de selvagens, dinossauros e um gorila monstruoso que sobe o edifício Empire States com uma mulher nas mãos. Cada uma das cenas históricas do filme original merece na versão de Jackson um tratamento de primeira, sem a pressa e a necessária economia que os meios de produção da década de 30 impunham aos primeiros realizadores. Isso explica em parte que o "King Kong" de agora tenha quase o dobro da duração do original.
A outra parte fica por conta do que o diretor neozelandês acrescentou à história. Não só em termos de espetaculares - há neste, por exemplo, a mítica seqüência do fosso de insetos gigantes que, apesar de filmada em 1933, nunca entrou no corte final do clássico. Peter Jackson avança principalmente na construção de seus personagens, em especial do próprio Kong, que aqui surge como, acima de tudo, um ser guiado (e fatalmente condenado) por sua obsessão. Essa constatação tem seu fundamento em uma cena nunca vista em nenhuma outra versão da história, mas a qual Jackson dá grande destaque: chegando ao ninho do gorila, Ann Darrow (Naomi Watts) vê dezenas de esqueletos humanos, todos eles envolvidos por um colar que marca a mulher a ser oferecida ao Kong como oferenda pelos nativos, o colar que ela própria está usando e que indica seu destino natural. O mesmo local será visitado mais uma vez pela câmera, quando a tripulação do navio parte ilha adentro em busca da mocinha e se depara com aquelas ossadas.
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Foto: Divulgação
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A visão desse santuário de Kong dá perspectiva à sua relação com Ann Darrow. Não há na moça nenhuma especialidade, nenhum traço que a destaque das mulheres oferecidas a ele anteriormente. Ela é, como todas as outras, o alimento da obsessão do gorila. Jackson escapa do simplismo ingênuo que atribuía ao contato entre os dois uma relação amorosa padrão. A famosa frase final, quando Kong morre abatido por aviões de guerra, contém uma ambigüidade que a tradução para o português não mantém. "It wasn't the airplanes; it was beauty killed the beast", diz Carl Denham, o cineasta algoz do gorila. "Beauty" sempre foi entendido como "bela", na oposição em que "foi a bela quem matou a fera". Mas "beauty", substantivo abstrato, também significa "beleza", e para Peter Jackson esse sentido se aplica muito mais à história. A tragédia de Kong não é a de um apaixonado que leva até as últimas conseqüências a vontade de ficar com sua amada. É sim a tragédia de um ser obcecado pela beleza.
Não é nenhum absurdo aproximar o filme de Jackson de outro a tratar exatamente do mesmo assunto, "Morte em Veneza", que o italiano Luchino Visconti dirigiu em 1971, baseado no romance homônimo de Thomas Mann. Ambos registram a derrocada de personagens que fazem de tudo para preservar o objeto de sua adoração, não porque o objeto tenha valor em si, mas porque representam a beleza, guia absoluto de suas existências. Tanto a Ann que o gorila salva do ataque dos dinossauros quanto o Tadzio que Gustav von Aschenbach tenta desesperadamente livrar da peste que assola Veneza são marcados por uma certa nulidade: não são nem propriamente "personagens", senão símbolos daquilo que está prestes a destruir seus defensores. Em "King Kong" a marca da obsessão é ainda mais acentuada quando Peter Jackson opõe ao primata a figura de Carl Denham (Jack Black), um personagem que também conhecerá a ruína por conta de sua obsessão, no caso, pela fama. Jackson sabe que para fazer um bom blockbuster é preciso mais que muito barulho e efeitos mirabolantes. Atualizando as temáticas embutidas no filme original (não são a beleza e a fama as grandes ordens do dia no mundo de hoje?), "King Kong" se esforça o tempo todo em abrir caminhos aos que quiserem mergulhar mais fundo nele - só o trecho que cita o livro "Coração das Trevas" de Joseph Conrad já daria pano para horas de papo pós-filme - sem nunca esquecer que é, antes de tudo, um produto de sólido entretenimento. São três horas, mas elas passam voando
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