O mesmo velho expediente




Esperteza é o que não falta à Aracruz Celulose. O mesmo expediente que ela usara anteriormente para se beneficiar do desvio do rio Doce, ganhando de graça mais água para o consumo de sua indústria, graças a uma medida da prefeitura de Aracruz, está se repetindo agora.

Da vez anterior foi o então prefeito Luiz Carlos Cacá Gonçalves quem a beneficiou. Desta, foi o sucessor de Cacá, Ademar Devens.

O pretexto alegado para esse crime ambiental foi o mesmo: aumentar a "disponibilidade hídrica nas várzeas do rio Riacho nos municípios de Aracruz e Linhares e desassoreamento do canal Caboclo Bernardo, no município de Aracruz".

Não há, basicamente, diferença alguma entre uma e outra medida, como conclui a direção da Associação Capixaba de Proteção ao Meio Ambiente (Acapema), que já estuda a possibilidade de denunciar o aumento da sangria do rio ao Ministério Público Federal (MPF) e à Justiça.

Para a Acapema, o desvio das águas do rio Doce para o rio Riacho tem como finalidade principal atender à multinacional Aracruz Celulose. A empresa precisa de mais e mais água para suas três fábricas, que terão sua produção ampliada.

Palavras da direção da ONG: "Trata-se da mesma situação anterior. A Aracruz Celulose diz que não precisa de mais água para suas fábricas. Mas o seu complexo industrial vai crescendo, o consumo de água aumenta, e a prefeitura de Aracruz é usada como instrumento para aumentar a captação das águas do rio Doce".

A direção da Acabepema informa ter provas de irregularidades que terão de ser sanadas. "Vamos estudar a situação criada pela atual administração da prefeitura e, se for o caso, faremos novas denúncias ao MPF e à Justiça".

A Acapema lembra que a bacia do rio Doce é federal e que a competência para outorga do uso de suas águas é da União. Há inclusive funcionando um comitê de bacia - o CBH-Doce - que é o seu órgão gestor. "A prefeitura de Aracruz devia saber que é preciso dimensionar a demanda para toda a comunidade, em toda a bacia. E não atender a qualquer custo um projeto industrial como o da Aracruz Celulose".

Como informamos anteriormente, a nova tentativa de aumentar a sangria do rio Doce foi feita em curto comunicado no pé de uma coluna da página dez do jornal "A Gazeta" de quinta-feira (22). A prefeitura de Aracruz "torna público que requereu ao Iema - Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, através do processo nº 22417168, renovação da Licença de Operação nº LO GCA/SAIA/nº 283/2005/Classe IV, para a atividade: adução de água do rio Doce ...". A justificativa é o tal aumento da disponibilidade do rio Riacho.

Essa ninguém engole. A Acapema deve acionar o MPF urgentemente para barrar mais esse absurdo com a chancela da multinacional Aracruz Celulose.