Faz tempo que não baixo de volta lá nas barrancas do Rio Doce, onde vive meu velho amigo Bastchão Bedurri. Mais de um ano. Desde que meu sábio e sereno amigo resolveu dispensar as bolas divididas, a poluição e as convivências compulsórias e utilitárias, não me lembro de quando foi que fiquei tanto tempo sem estar com ele. Notícias chegam, às vezes, todas boas. Segue forte, denso e flexível, o meu velho amigo e conselheiro, nascido Sebastião da Beira do Rio mas Bastchão Bedurri tornado, pela incrível capacidade aglutinatória da fala de nossos conterrâneos nascidos naquele vale.
Tô me preparando pra visitar o velho ribeirinho em seu pequeno sítio, em algum lugar entre as Minas Gerais e o Espírito Santo. Levo saudade, cansaço, muitos tropeços, tristezinhas amotinadas, algumas pequenas vitórias, e perguntas, perguntas, tantas e variadas.
Já nos imagino arrancando minhocas no fundo do quintal, preparando tarrafas, linhas, anzóis e chumbadas, e depois caminhando descalços, driblando malícias, guaximas, arranha-gatos, carrapichos e marias-dormideiras, por pequenas trilhas, até os pesqueiros preferidos do meu amigo. Ali, enquanto o fundo musical da cachoeira vai pouco a pouco liberando as tensões acumuladas ao longo de um ano de muito trabalho, pouco a pouco a prosa vai aflorando. A princípio, monossilábica, tateante, esparsa.
Depois, entre piaus e pacumãs, tilápias e cascudos, as vivências vão se amaciando, tornando-se dizíveis, audíveis, produzindo reflexões, outras conversas, boas gargalhadas.
Também tem os lambaris, com suas escamas que se mostram douradas ao Sol. A esses, pescados com anzol mosquitinho, dois destinos são reservados: boa parte, depois de limpa e passada no fubá, vai se tornar petisco de primeira. A outra parte vai virar isca de traíra, pra uma pescada noturna, na Lagoa dos Fundamentos. Aí já é coisa pra pouca conversa, a gente se integrando em corpo e espírito com a fauna noturna, com o vento da noite, com as lanterninhas verdes dos vagalumes e com as lendas que vivem dentro da gente. E as traíras, lá, acreditem, costumam ter mais de um palmo - dum zói no outro.
Bastchão Bedurri tem na cabeça uma enorme estante dos melhores livros. Deles, apreendeu magistralmente a essência. O pensamento de grandes autores flui de sua boca sem citações de nomes, sem dificuldades e sem palavras difíceis. Não é um professor, mas um mestre, expressão aí entendida como um educador, aquilo que todo professor deveria ser mas só pouquíssimas pessoas conseguem.
O nível de clareza que meu velho amigo consegue imprimir a suas reflexões é típica daqueles raros seres que já atingiram a simplicidade, prima primeira da sabedoria. Então, quando falo com ele, esforço-me para perder, pelo menos temporariamente, certos vícios de intelectual que já o levaram a me dizer mais de uma vez, entre irônico e fraterno:
"Trem difícil de entender tem mentira dentro."
Os períodos que posso passar com Bastchão Bedurri reforçam em mim a lição do Gonzaguinha, velho amigo dos anos 70 e grande mestre da música popular brasileira: "a beleza de ser um eterno aprendiz". E poder dar uma desacelerada na vida, ainda que por uns dias, e ainda mais na companhia do velho e sábio amigo ribeirinho, será de fato uma dádiva.
O resto fica por conta do ar puro, do cantar da cachoeira, da soneca depois do almoço, do reencontro com uma história e uma cidadezinha que em grande parte hoje só existe dentro de mim, com seu encantamento, sua falta de pressa e seus valores hoje tão escassos nos ambientes por onde a gente trafega durante a luta pra conseguir pôr na mesa o cotidiano pão.
Faltam poucos dias. Que bom.
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