Vitória (ES), edição de 29 de novembro de 2005    
  Arquivo VCV:   28/11/2005       29/11/2005       30/11/2005       01/12/2005       02/12/2005       03/12/2005       Fale Conosco
Vídeos preferem discurso
político no 1º dia



Por Rodrigo de Oliveira
Colunista de Cinema do Século Diário


A primeira tarde de exibição dos vídeos concorrentes dentro do Festival ficou marcada por produções que enfocam o cinema político, como "Não É Só Uma Passagem", com reação do público. Por outro lado, alguns vídeos não conseguiram concretizar boas idéias.

  
Foto: Divulgação
  
"I Want You (Eu Quero Você)", de Joseph Doll
O vídeo é uma colagem de imagens da destruição provocada pelas guerras e conflitos no mundo todo. Em seqüência cronológica, salta da Segunda Guerra Mundial até a recente invasão do Iraque para mostrar os estragos que o imperialismo americano provoca pelo mundo. A disposição das imagens, a trilha sonora e a mensagem direta anti-bushista fazem supor que se Jean-Pierre Gorin e Jean-Luc Godard tivessem seguido com os trabalhos políticos do extinto grupo de cinema Dziga Vertov, produziriam algo muito próximo deste vídeo de Joseph Doll.

  
Foto: Divulgação
  
"O Petróleo É Nosso", de Uriel Pereira
"O Petróleo é Nosso!" também focaliza o domínio ianque, e vai mais longe. O vídeo de Uriel Pereira traz para a ficção um encontro (que muito provavelmente aconteceu e acontece ainda pelas bandas do Oriente Médio) entre um soldado americano e um árabe que foge com um galão de gasolina pelo deserto. Uma analogia arriscada, mas a qual não resistiremos, pode ser feita com a recente trilogia ainda não concluída de Lars Von Trier sobre os Estados Unidos, que inclui "Dogville" e "Manderlay". Mesmo partindo de um ponto de vista totalmente diverso (não tentando, por exemplo, "explicar a América" como o cineasta dinamarquês), está presente no vídeo do diretor catarinense o sentimento de que a dominação cultural e ideológica da maior potência do mundo está tão presente e tão enraizada em países periféricos como nosso que é possível que realizadores brasileiros falem de questões aparentemente exclusivas dos americanos com a propriedade de quem fala de um assunto próprio - porque o que manda ou desmanda lá na América nos diz tanto respeito quanto qualquer problema daqui de dentro.

  
Foto: Divulgação
  
"Não É Só Uma Passagem", de Igor Pontini
Já "Não é Só Uma Passagem" trata de uma questão mais que localizada. As imagens de Igor Pontini registram as tumultuadas manifestações estudantis acontecidas este ano em Vitória quando da decisão do aumento da passagem de ônibus pelo governo do Estado. O vídeo articula uma dupla estratégia: opõe aos "olhos de fora" da cobertura da imprensa local sobre os eventos uma "visão de dentro", com imagens impressionantes da violência desmedida dos policiais chamados para reprimir o movimento e do aumento da mobilização a medida que as manifestações ganharam força e adesão de mais estudantes e da população. Por simples que pareça, esta é a grande marca do vídeo: o "estar lá", o participar junto, um registro que se cola na realidade por ter sido justamente gerado nela. O evento político mais relevante no Espírito Santo nos últimos 10 anos que faz nascer um vídeo de igual relevância.

"Quem", de Luiz Rezende
"Tédio", de Leandro Niero
"Se Estou Certo, Porque Meu Coração Bate Do Lado Errado?", de Joacélio Batista

O grande pecado de todos os vídeos de ficção e videoarte exibidos na segunda-feira (28) no Cine Metrópolis é o de não conseguirem escapar de suas próprias propostas. Cumprindo bem estes papéis, fica em todos a sensação de que todas as idéias expostas se esgotam rapidamente em si mesmas. "Quem", um vídeo carioca, trata (adivinhem?) da troca de identidades como uma marca da vida contemporânea. Quatro personagens se revezam nos papéis, repetindo uma mesma conversa que termina na palavra que dá título ao filme - aqui o assunto do vídeo já está esgotado desde o título. É assim também com o videoarte capixaba "Tédio", com um jeito indisfarçável de propaganda televisiva baseado em sacadas espirituosas que só reforçam o... título. E ainda toca a música homônima do Biquíni Cavadão no final, para o caso de ninguém ter percebido do que se tratava. "Se Estou Certo, Porque Meu Coração Bate do Lado Errado?" pelo menos se esforça em não morrer no nome. Mas o truque de montagem, que simula um homem andando num banquinho pela cidade através de uma técnica própria da animação, realmente interessante no começo, vai se esvaindo a medida que percebe-se que o filme fica só nisso.

"Limbo", de Andrés Bukowinski
"Domingo", de Joana Luz e Maria Clara Escobar

Os vídeos mais bem trabalhados são "Limbo" e "Domingo". Com atores famosos (o primeiro, Caco Ciocler e Ewerton de Castro, o segundo, Ruth de Souza), os vídeos dizem numa boa encenação, ambos demonstrando grande domínio da técnica por parte de seus realizadores - "Limbo", em particular, tem uma fotografia primorosa. Mas os dois trabalhos também não conseguem fugir da sina de serem tímidos demais em suas considerações. Em "Limbo", um escritório abandonado serve de purgatório onde o protagonista se confronta consigo mesmo, se conta da morte, culpa Deus, culpa a esposa que o esfaqueou para depois se reconciliar com todos os quatro elementos. É um típico roteiro em que a fonte é a própria Bíblia. Já "Domingo" escolhe a história de uma velha sozinha numa cidade grande e que tenta romper o isolamento embarcando em viagens de ônibus pela cidade. O mesmo problema do mal-do-século que aflige metade da população (e metade dos filmes e vídeos produzidos).

E-mails para o colunista: rod_ol@yahoo.com.br


 

Leia Também:
    
Caderno Atrações
Notícias da área cultural

Agendas
Turismo e Cultura do ES

Século Diário
Notícias do dia

Veículos
Novidades sobre o mundo automobilístico