| |
Foto: Divulgação
|
|
|
|
"Como se fosse Ontem", de Gustavo Moraes e Roberto Seba
Curiosamente, os três filmes ditos "infantis" da noite discutiam a relação (ora de oposição, ora de harmonia) entre o mundo das crianças e o mundo dos adultos. O curta capixaba "Como Se Fosse Ontem" conta a história de um casal que rememora o dia em que se conheceram, ainda pequenos, numa partida de futebol. Há um tom inegável de louvação da infância como uma época mágica, onde as duas versões para o encontro do casal acabam, fatalmente, por promover um final feliz. À falta de habilidade dos atores adultos que narram a história os diretores opõem as cenas em flashback do tal jogo, e cabe ao elenco mirim os melhores momentos do filme. Uma referência clara é o curta-metragem "Uma História de Futebol", de Paulo Machline (indicado ao Oscar seis anos atrás), especialmente na fotografia, um tom alaranjado e brilhante que ajuda a envolver mais ainda a meninice numa teia de idílio. "Como Se Fosse Ontem", no entanto, não escapa em nenhum momento da pecha de "filme fofo", onde todos os elementos da história acabam se esgotando em si mesmos, as piadas são engraçadinhas, os atores mirins são bonitinhos, o final feliz é encantador, reina uma harmonia inequívoca entre a memória dos adultos e as experiências de criança - o que é muito pouco, especialmente vindo de um diretor como Gustavo Moraes, cujo "Baseado em Estórias Reais" indicava um caminho muito diferente (e melhor) do que este novo curta.
| |
Foto: Divulgação
|
|
|
|
"Peixe Frito", de Ricardo George de Podestá
Os ruídos entre velhos e moços têm um bom momento na animação goiana "Peixe Frito". Num barco no Rio Araguaia, um avô ensina seu neto a pescar, e o começo do filme estabelece a relação tão batida que cola à imagem do velho um certo monopólio da sabedoria. A função de "apresentar o mundo" aos mais novos, no entanto, não parece caber no personagem do avô, e à medida que o filme avança, desmonta-se a relação inicial de sabedoria. A inversão se dá por conta do senso de ecologia (o grande tema do curta), que falta ao avô mas do qual o neto, criado numa época que transforma a preservação ambiental num valor a ser defendido e propagado, é porta-voz. A pescaria, inicialmente pretendida pelo avô como lazer e diversão, é tratada pelo menino como atividade predatória, e esse é o espaço para que o diretor Ricardo George de Podestá faça seu discurso sobre o histórico de degradação que tirou, ao longo dos anos, a vida animal do rio. Some a meiguice inicial do avô, que leva o politicamente incorreto às raias da loucura. Diante da impossibilidade de um happy-end (dada a destruição já patente do Araguaia), Podestá inverte os postos entre avô e neto, uma inversão que se dá na teoria - a mensagem ecológica do filme - mas que na prática não se realiza. O avô mata o peixe cuja trajetória acompanhávamos no fundo do rio paralelamente à conversa no barco, e num curta que tinha tudo para embarcar no puro foguetório ambientalista, o final totalmente down é uma surpresa para lá de bem-vinda.
| |
Foto: Divulgação
|
|
|
|
"Historietas Assombradas (Para Crianças Mal-Criadas), de Victor Hugo Borges
Mas é em "Historietas Assombradas (Para Crianças Mal-Criadas)" que vemos os maiores questionamentos e embates entre o mundo dos adultos e das crianças. O curta-metragem do paulista Victor Hugo Borges - candidato sério ao Troféu Marlin Azul, não só na categoria de animação, na qual é primoroso, mas também para melhor filme e júri popular, dada a ovação recebida após a exibição - evita qualquer tipo de associação fácil que se possa fazer às personalidades de suas protagonistas, uma avó já bem velhinha (dublada rouca e lindamente por Mirian Muniz) que conta histórias de terror para a netinha que insiste em não dormir. Mais que a adesão imediata (de "Como Se Fosse Ontem") ou a oposição direta (de "Peixe Frito"), "Historietas Assombradas" promove um desafio entre os dois mundos. O que está em jogo é justamente aquele mesmo mandamento da sabedoria da velhice contra a ingenuidade da infância, mas que aqui é posto em outros termos. Enquanto exige que a avó conte histórias mais assustadoras do que as que já ouviu, a menina coloca em xeque esse mandamento. Por um momento, é como se a esperteza de uma nova geração ficasse em pé de igualdade com os conhecimentos já enfraquecidos e invalidados dos antigos. O tom de desafio é até verbalizado: um certo escárnio na voz da menina irrita a avó a ponto de trocaram algumas ofensas leves e deliciosamente engraçadas. É na última das três histórias folclóricas contadas pela avó que teremos a solução para esse desafio. Victor Hugo Borges ultrapassa as fronteiras que separam esses dois mundos, mostrando que eles são na verdade um só. Ao apelar para a história de um monstro terrível que faz as crianças dormirem soprando estrelas em seus olhos, a avó incorpora à sua sabedoria a crença ingênua (aqui tratada como uma verdade oculta) que durante todo o filme a neta se esforçou em negar. A convivência da maturidade e da juventude, não como conseqüência ou como opostos, mas como parceiras de sonho - esse é o grande recado de Borges e seu "Historietas Assombradas", o melhor filme da primeira noite de mostra competitiva.
"Mestre Humberto", de Rodrigo Savastano
Mestre Humberto, a certa altura, conta uma história sobre o nascimento da palavra "filosofia". Diz que Sócrates preferia não ser o dono, e sim "amigo da sabedoria" - postura que Humberto, o músico negro carioca registrado no documentário de Rodrigo Savastano, assina embaixo. O grande mérito do curta-metragem é justamente comungar dessa amizade, e acompanhá-la com a mesma paixão demonstrada por Mestre Humberto na frente da câmera. Essa comunhão não se traduz num adesismo ou mesmo na mitificação desse personagem da vida real. Consciente do tamanho de seu retratado, o documentário se fia exclusivamente nas relações que Humberto estabelece com a vida e com o mundo, e deixa que essa grandeza surja espontaneamente (e não de floreios cinematográficos ou de um discurso exterior). O compasso do filme é o de uma certa nostalgia. Mestre Humberto fala em línguas africanas, européias, arrisca um latim, explica a origem do samba, vindo do jongo, vai às ruas da Lapa carioca, anda por bares, conversa com amigos, e nisso tudo há uma sensação de um personagem (mais que isso, de uma cultura) em vias de desaparecer. Savastano consegue, no entanto, fugir de uma relação comum nesse tipo de registro que é a da valorização muito maior do trabalho do documentarista em resgatar uma figura esquecida do que do próprio objeto documentado. Se o filme tem um quê de nostálgico, esse sentimento se justifica unicamente pela certeza, traduzida diretamente nas palavras e expressões de Mestre Humberto, de que pessoas como ele simplesmente não podem desaparecer sem que sejam conhecidas.
"O Mundo É uma Cabeça", de Cláudio Barroso e Bidu Queiroz
O outro documentário da noite, "O Mundo É Uma Cabeça", trabalha em linhas um tanto diferentes. Registro da efervescência do Mangue Beat pernambucano, seu objeto já teve (e ainda tem) o reconhecimento e a propagação que merece. O filme de Cláudio Barroso e Bidu Queiroz, no entanto, sente uma certa necessidade de reafirmação desse reconhecimento - traduzida, sobretudo, nas entrevistas recentes presentes no curta. Esse registro posterior se choca com as imagens geradas direto no epicentro do movimento, que acompanha um show no começo dos anos 90 com a presença da Nação Zumbi, mundo livre s/a e Mestre Ambrósio. À essas imagens são adicionadas outras, que acompanham os integrantes das bandas em momentos fora do palco. A espontaneidade dessas tomadas, sem o peso de 10 anos de história que se passaram desde quando foram registradas até agora, diz muito mais sobre o tamanho e a importância do Mangue Beat do que as entrevistas posteriores. São esses momentos (em especial o passeio de carro em que Chico Science dispara idéias e músicas incríveis) que tiram de "O Mundo É Uma Cabeça" o ranço de "testamento" de uma época, o que sugeriria sua morte, e o impregnam da mesma vivacidade e atualidade que as próprias canções e os músicos carregam consigo.
"Observador", de Alexandre Serafini
Os curtas ficcionais da noite formam uma mostra bem interessante dos caminhos que trabalhos desse tipo têm seguido na produção brasileira. O capixaba "Observador" se arma de diversos símbolos contemporâneos para contar a história de um sujeito envolvido num crime. A dobradinha Internet e câmeras de vigilância, mais que presenças, são as traduções mais diretas (e óbvias) de uma modernidade da qual a vida atual parece estar refém. O filme de Alexandre Serafini comete os mesmos pecados de roteiro já tão vistos nos curtas recentes do Espírito Santo, se bastando de uma virada na trama para provocar no espectador uma sensação qualquer que o resto do filme todo é incapaz de cumprir (pensemos, por exemplo, em "Céu de Anil", de Lizandro Nunes). "Observador", no entanto, parece muito mais consciente das possibilidades que sua história apresenta, o que se traduz numa câmera sempre bem colocada e uma encenação que escapa da canastrice habitual. Pena que isso seja, no fim de tudo, veículo apenas para mais uma história com surpresa no final.
"Desequilíbrio", de Francisco Garcia
Um caminho totalmente oposto segue "Desequilíbrio", o grande equívoco da noite. Filme na linha "conceitual", o curta de Francisco Garcia cai em todas as armadilhas desse tipo de cinema. Vida na corda-bamba, a falta de lugar do homem nas metrópoles, as relações humanas cada vez mais animalizadas (há, acreditem, um elefante no filme que simboliza isso). E esse é o grande problema do filme, acreditar e levar à sério demais as metáforas que apresenta, tomando-as como grandes descobertas filosóficas. Uma prostituta cuspindo considerações profundas sobre a existência, um trapezista por quem se apaixona, tudo embalado numa fotografia que impressiona tanto por sua qualidade como por seu total deslocamento dentro do filme: o trabalho do fotógrafo Marcelo Trotta é grande demais para um filme tão pequeno como "Desequilíbrio".
"Terra Incógnita", de Gil Baroni e Beto Carminatti
A melhor experiência na área da ficção é justamente aquela que apela para a simplicidade. "Terra Incógnita", dos paranaenses Gil Baroni e Beto Carminatti, não se interessa em adicionar conceitos e teorias à história de seu protagonista. Ary Fontoura interpreta um senhor que, após a morte da mulher e de vários amigos, se recusa morrer velho. Consciente da presença próxima da morte, cumpre o que havia dito literalmente a seus amigos. Pinta o cabelo, compra roupas novas e espera a morte chegar. Pode-se argumentar que essa postura dos diretores é na verdade uma fuga de maiores considerações a respeito de temas tão patentes como a velhice e a morte. Mas a fluência do filme demonstram uma opção consciente de deixar a história acontecer por ela mesma. Não que seja um grande filme, "Terra Incógnita" é sim um filme muito honesto - e nisso já está muitos passos à frente de boa parte da produção de curtas de ficção do país.
E-mails para o colunista:
rod_ol@yahoo.com.br
|