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Foto: Divulgação
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Último filme exibido na sessão de vídeos da segunda-feira, "Assim Caminha Regência", de Ricardo Sá é o projeto capixaba deste ano realizado dentro do programa do governo chamado DocTV. Fica claro no média-metragem que sua vocação é televisiva.
E tal fato provoca um certo estranhamento, tendo sido o vídeo exibido num festival de cinema.
"Assim Caminha Regência" comete vários pecados ao longo de seu trajeto (sendo um deles a aparente multiplicidade de trajetos, que se confudem de modo a quase atrapalhar), mas há algo de irresistível em seus temas e personagens que livram o documentário da gaveta do esquecimento. Seu grande resultado é justamente o oposto: para um veículo dado a efemeridades como a televisão, "Assim Caminha Regência" fica grudado na memória muito tempo depois de terminada a sessão. Boa parte desse resultado se deve ao personagem que é o fio condutor da história. Seu Miúdo, o morador de Regência que se auto-intitula "anjo da guarda" do Caboclo Bernardo, um herói local do qual o tempo e a história foi se esquecendo. Diante de duas grandes oportunidades, a saga de um caboclo no fim do século XIX que salva sozinho mais de 100 pessoas de um naufrágio, e a saga igualmente fascinante de um homem que dedica a vida a preservar a memória deste homem, Ricardo Sá se embaralha. O filme flutua indeciso entre as duas histórias, sem saber a quem privilegiar em determinado momento, o que dá uma certa instabilidade ao vídeo e atravanca sua fluência. Essa falta de habilidade, no entanto, parece muito mais fruto de um excesso de material nas mãos do diretor, que precisa organizar tudo isso em imagens seqüenciais, do que necessariamente desleixo ou falta de foco. Quando uma terceira força entra no vídeo, a própria cidade de Regência, as coisas se embaralham ainda mais. A conexão entre Seu Miúdo, Caboclo Bernardo e a cidade, clara para quem ouve as histórias, não se realiza totalmente enquanto material fílmico, e a variedade de assuntos cai perigosamente na linha do "tudo ao mesmo tempo agora".
Risco maior de um projeto desses, no entanto, é a grande carga emotiva em que é envolto. Há uma sensação espalhada pelo documentário inteiro de ser ele o veículo que finalmente dará visibilidade a uma história que não tem a atenção que merece. Essa sensação se justifica em parte pelo valor histórico e cultural inquestionável que o Caboclo Bernardo e seu anjo da guarda têm para a cidade e para o Estado. Mas, por outro lado, o patriotismo/bairrismo pode levar a certas distorções, ou mais ainda, a uma falta de pensamento crítico sobre o tema e o objeto documentado. A certa altura, uma das pessoas entrevistadas diz: "Me orgulho de Regência e não admito que ninguém fale mal nem um instante". O vídeo de Ricardo Sá parece intimidado por essa frase, presente de forma velada em quase todos os depoimentos. Daí, por exemplo, uma necessidade de casar os depoimentos barrocos de Seu Miúdo e dos moradores da cidade aos depoimentos eruditos e acadêmicos dos profissionais envolvidos com o tema. Mas é, sobretudo, pela força dos olhos azuis de Seu Miúdo que o vídeo se sente mais atraído - e é isso que dá à "Assim Caminha Regência" a legitimidade buscada, ao longo do documentário, de tantas outras maneiras. Não importa se verdade, mentira, se loucura ou delírio. É na devoção de um homem pela memória que se funda a raiz do trabalho de Ricardo Sá, e isso já é muita coisa.
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