Vitória (ES), edição de 30 de novembro de 2005    
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Segunda noite de curtas ganha público



Por Rodrigo de Oliveira
Colunista de Cinema do Século Diário


"Viva Volta", de Heloisa Passos
"A Velha e o Mar", de Petrus Cariry


  
Foto: Divulgação
  
O que estava em jogo no primeiro e no último filme exibido na noite desta terça-feira era a questão secular da postura do documentarista diante do retrato de um personagem. Tanto o cearense "A Velha e o Mar" quanto o paranaense "Viva Volta" assumem para si o peso de serem o veículo que jogará luz sobre personagens importantes demais para continuarem nas sombras em que estavam (uma tendência visível em alguns dos documentários já apresentados no festival, como "Mestre Humberto" e "Assim Caminha Regência"). A escolha dos retratados e a forma como ambos os filmes conduzem suas narrativas deixam claro que há por trás desse peso uma relação afetiva direta entre os realizadores e seus objetos. É a partir dessa certeza que os filmes de Petrus Cariry e Heloísa Passos encaminham as imagens exteriores àquelas em que aparecem Dona Alzira, a velha do título que mora sozinha num barraco em cima de um pier, e o trombonista Raul de Souza, brasileiro radicado no exterior por não ter o reconhecimento em seu próprio país. Em "A Velha e o Mar", no entanto, a composição dessas imagens exteriores parece a todo momento estar um tom acima do discurso de Dona Alzira. Vistas noturnas da cidade, tomadas do mar e da arrebentação, uma câmera um tanto frenética e muito recortada, a trilha sonora pontuando cada emoção, todos esses elementos remetendo a sensações que simplesmente não estão presentes nas histórias contadas pela velha pescadora. É como se, não confiando nos significados que saltam a cada frase dita pela mulher, Cariry sentisse a necessidade de fornecer um leque de informações complementares - e nisso acrescenta uma frieza incômoda à uma personagem que de fria não tem nada.

Trabalhando em chave semelhante, "Viva Volta" logra resultados bem diferentes. As imagens-síntese que Heloísa Passos escolhe para entremear os trechos com entrevistas de Raul de Souza e dois momentos musicais dele com Maria Bethânia são todas elas sugeridas diretamente pelo próprio trombonista. Logo no começo, em off, ouvimos Raul dizer que "a cor do meu som é azul", e o filme todo assume essa cor daí para frente. Ao triste discurso em que ouvimos o músico falar da importância do reconhecimento em sua própria aldeia, e não somente o foguetório internacional, são sobrepostas imagens de atividades cotidianas de Raul, como guardar o instrumento numa maleta ou andar pelos corredores de aeroportos, e é só no casamento do que é dito com o que é mostrado que reside o conjunto de significações presentes naquele momento. Fiando-se numa espécie de tradução imagética não reiterativa, mas parceira da verbalização dos sentimentos do personagem, "Viva Volta" dá conta da tarefa a que se propôs inicialmente, e parece difícil que depois do filme algum espectador não se interesse em buscar discos e gravações de Raul de Souza.

  
Foto: Divulgação
  
"Dormente", de Joel Pizzini

"Dormente" é cinema-viagem, e exige desde o começo a disposição do espectador para o embarque em suas imagens. É uma proposta arriscada, que pode receber um sonoro "não" de quem assiste. Mas aqueles que decidem entrar na corrente estendida pelo novo curta-metragem de Joel Pizzini se deparam com um mundo de cenas bem construídas onde a tentativa de um discurso sobre a vida moderna a partir da sucessão de trilhos e vagões de trem em constante movimento se esvai diante da possibilidade, ainda maior e mais interessante, de plataforma para a costura mental que o público dará àquelas imagens. Está nas mãos de quem vê a atribuição de significados. Não que Pizzini se furte deles; são para isso, por exemplo, as citações aos filmes do russo Dziga Vertov e as músicas de Itamar Assumpção. Mas "Dormente", entre uma viagem e outra, oferece espaços por onde é possível caminhar com total liberdade - não é somente uma relação espectatorial, a sensação é quase de co-autoria entre público e realizador.

  
Foto: Divulgação
  
"Manada", de Luiza Lubiana

Não deixa de ser encantador que, a essa altura do campeonato, um filme como "Manada" ainda acredite e leve a cabo tão sinceramente uma série de associações simbólicas e metafóricas de validade e atualidade um tanto questionáveis. Este acaba sendo o grande valor do curta-metragem capixaba dirigido por Luiza Lubiana, a entrega de coração (literalmente) aberto a sua história e a seus personagens. Isso, no entanto, não esconde que nessas duas áreas, "Manada" vai do nada ao lugar algum. Misturando sacadas metafísicas, kdrituais macabros de uma tribo de origem confusa e um jeitão de conto folclórico tirado da Internet, o filme aposta em criar um clima de tensão através da música insistente e da oposição entre o espaço vazio das dunas e praias por onde anda a protagonista e a sobreposição de cantos e gestos dos habitantes da aldeia para qual a moça se encaminha. Esse clima deveria se justificar pela conclusão supostamente arrebatadora da história de aproximação entre a mulher branca e a comunidade negra/índia, mas essa conclusão simplesmente não se realiza enquanto filme. O final em aberto é, antes de uma atitude calculada, a demonstração da incapacidade de se avançar com alguma coerência numa história que, já desde o começo, provou-se frágil demais para sobreviver dignamente pelos doze minutos do filme.

  
Foto: Divulgação
  
"Habanera", de Joana Oliveira

É difícil que apareça nesta edição do festival um filme ficcional tão bem resolvido como "Habanera", trabalho da mineira Joana Oliveira produzido pela Escola Internacional de Cinema de Cuba. Extremamente consciente do formato de curta-metragem, "Habanera" escapa das armadilhas que fizeram tropeçar todas as ficções exibidas até agora: não é uma piada filmada, não aposta na fórmula fácil da "surpresa do final", não abusa dos floreios narrativos cuja única razão é a vontade de impressionar a qualquer custo. Apela para o básico em qualquer história inventada: lança um fio narrativo, constrói sua personagem, agrega momentos secundários que só existem para servir à história central, e chega a um final tão forte quanto crível - porque fruto de um trabalho que confia no que tem para contar. A história da mulher cubana que pela primeira vez pensa em sair do país por conta da paixão por um estrangeiro é apoiada num domínio extraordinário da linguagem cinematográfica. Nada está em excesso, nada existe por si mesmo: a câmera, a fotografia, as atuações, a música, tudo está lá como peça de um quebra-cabeça que só funciona se todos esses elementos se encaixarem perfeitamente - e eles se encaixam.

Não há grande novidade na trama. Diante da possibilidade de sair de seus domínios, Susana (Brocelianda Hernández, em atuação inspirada) acaba se confrontando com aquela matéria misteriosa e intangível a que chamamos de "nacionalidade". Não que se faça um discurso de patriotada cubana ou socialista. "Habanera" traduz a nacionalidade para o sentimento universalmente relacionável de pertencimento e reconhecimento da sua própria identidade na convivência com os que dividem com você a mesma história. A dúvida entre a permanência no país de origem (a qual não é associada nenhuma harmonia inequívoca - como mostra a história do velho a quem Susana precisa convencer a sair de casa, por conta do risco da construção antiga desabar) e a ida para um país estrangeiro (nunca ligado à idéia de paraíso das oportunidades que a terra natal se nega a oferecer), essa dúvida visível nos olhos e na narração progressiva de Susana é respondida pela câmera: nas ruas de Havana, Joana Oliveira vai buscar nos rostos da população, nas ruas, nos casarios, a referência que sua protagonista, por um instante, parece ter perdido. Momento de cinema puro, esse registro documental adianta a opção que Susana selará na última frase que diz, mas não há nisso qualquer ranço de "surpresa estragada", porque não há surpresas em "Habanera". Atados à Susana, surge na relação com o espectador uma aproximação quase tão forte quanto a que a personagem redescobre com seus conterrâneos. Atrás dessa relação, alguns diretores (de longa-metragem mesmo) correm por toda sua carreira sem conseguir nunca alcançá-la. Joana Oliveira precisou de pouco mais de dez minutos para isso.

  
Foto: Divulgação
  
"Vinil Verde", de Kleber Mendonça Filho
"O Arroz Nunca Acaba", de Marcelo Marão


Uma sensação de trajeto atravancado permeia estes dois curtas. "O Arroz Nunca Acaba" é uma animação work-in-progress que o diretor Marcelo Marão decidiu lançar como filme. A idéia é a denúncia do processo: à agilidade colorida de um boneco correndo por túneis e saltando rios seguem-se seqüências onde só os esboços à lápis são mostrados, sem animação, apenas o som e as expressões dos personagens sugerindo as ações. A fluência e a perfeição dos detalhes, tão caros à esse tipo de trabalho, são abandonadas em nome de uma variedade de registros que só mostram que o filme de animação pode ir para além desses mandamentos cerceadores. E, curiosamente, é numa espécie de animação de fotografias de cena que "Vinil Verde" se baseia. Toda a dramatização que a ação e o movimento poderiam acrescentar à uma história já tão cheia de dramas como a da lenda do disco verde que uma menina insiste em ouvir, apesar da proibição de sua mãe, é eliminada com o uso dessa técnica. A seqüência de fotos, acompanhada pela narração em off, estão de tal maneira bem amarradas que fabrica-se uma sensação muito próxima daquela sentida quando se ouve uma lenda dessas: o espaço entre uma foto e outra é preenchido com a imaginação do espectador. Se parecem atravancados, "O Arroz Nunca Acaba" e "Vinil Verde" provam justamente que a fluência pode ser atribuída de outras maneiras que não as já estabelecidas.

[Para conferir as críticas dos outros dias, escolha a data desejada na página principal do hot-site, sendo sempre um dia posterior ao exibido dentro do Festival]

E-mails para o colunista: rod_ol@yahoo.com.br


 

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