Vitória (ES), edição de 30 de novembro de 2005    
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Vídeos apontam para
fechamentos de fronteiras



Rodrigo de Oliveira,
Colunista de Cinema do Século Diário


Espaço tradicional para a experimentação com audiovisual, o vídeo parece cada vez mais caminhar para um certo "fechamento de fronteiras", restringindo suas possibilidades às loucuras já devidamente instituídas dos realizadores.

  
Foto: Divulgação
  
Cena de "Autoconhecimento"
E a exibição desta terça-feira no Cine Metrópolis mostrou o quanto esse cânone do que antes era alternativo já está se espalhando. O primeiro vídeo da tarde, "Musculatura", do goiano Érico Rassi, é uma mistura equivocada de Casseta & Planeta com João Kleber. Típico produto de quem assistiu errado aos filmes de Quentin Tarantino, "Musculatura" não faz cerimônia ao utilizar seguidamente piadas com homossexuais, deficientes físicos e negros - e o modo como encara essas piadas, sem a menor consciência crítica, beira o mais cruel preconceito. Agilidade, cortes em movimento, câmera acelerada, fotografia afetada, os clichês do vídeo seguidos à risca num trabalho constrangedor.

O vídeo como veículo do ego teve seu ponto alto com os dois trabalhos do carioca Christian Caselli, "Auto-conhecimento" e "Antes/Depois". Restritos a umas piadas esgotadas pelas referências e um apelo ao tosco como artifício de humor certo e inquestionável, ambos os vídeos caem na teia do "mas é só isso?".

"Compondo Sobre Uma Tela" e "P.S.: Post Scriptum", os vídeos capixabas da sessão, parecem creditar a si mesmos e aos discursos que carregam uma seriedade que não se encaixa com as imagens.

Ao baiano "Caçadores de Saci", espécie de versão preguiçosa do Sítio do Pica-Pau Amarelo, falta mesmo a própria consciência da especificidade do vídeo: usando enquadramentos e movimentos do cinema de película, consegue resultados pífios de encenação.

"Meu Nome É Paulo Leminski", de Cezar Migliorin
"Leito Suntuoso da Revolução", de Louise Ganz e Wilson Dellani Lima
"Kiarãsã Yõ Sâti, O Amendoim da Cutia", de Komoi e Pauti Paraná<
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Os melhores vídeos da sessão foram justamente aqueles que apostaram na veia da liberdade de criação que o formato proporciona. "Meu Nome é Paulo Leminski" é candidato à premiação, mas o júri terá que decidir qual é o seu gênero. É documentário quando Cezar Migliorin registra as reações de seu filho à tarefa (não muito bem aceita) de declamar um poema de Leminski. Mas a condução do diretor, submetendo seu filho-personagem à situações cada vez mais incômodas pode ser vista como um exercício de ficção. Mesma coisa com "Leito Suntuoso da Revolução", espécie de poema filmado onde um menino costura literalmente os móveis e objetos de uma casa com uma linha azul. Entremeado por tomadas de bibelôs, relógios e objetos decorativos, o vídeo mineiro não tem medo nenhum de escorregar na pieguice (o que definitivamente não acontece) e acaba produzindo as mais belas imagens vistas no Metrópolis até agora.

  
Foto: Divulgação
  
Cena de "Paulo Leminski"
Um último e fundamental aspecto do vídeo é a grande base de "Kiarãsã Yõ Sâti, o Amendoim da Cutia". O documentário pernambucano vale-se da facilidade de acesso que o vídeo, muito mais barato e prático que a película, proporciona. Dessa forma, dois índios da tribo Paraná levam câmeras para sua aldeia e registram a vida da comunidade, com a aproximação e a propriedade de quem fala sobre si mesmo e seus iguais. As imagens do documentário são fascinantes, e impressiona o modo como, mesmo mergulhados naquela cultura, os realizadores conseguem pensar criticamente suas posturas, em especial na relação com a influência do homem branco.


E-mails para o colunista: rod_ol@yahoo.com.br


 

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