A Esquerda em Movimento




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Está em curso um processo de reconstrução da esquerda no Brasil, como bem assinalou a cientista política Lúcia Hippólito através da rádio CBN. Reconstrução e rearrumação do espectro político-partidário.

Sinais deste processo são a caminhada do PT na direção do centro do espectro político, o surgimento do P-Sol e as interlocuções entre o PDT e o PPS, por exemplo. Há uma tendência de rearrumação das esquerdas, em busca da ocupação do espaço deixado pela caminhada do PT para a centro-esquerda.

Em política, como se sabe, não existe vácuo. Ainda mais porque, nas democracias, o espectro político pressupõe um quadro político-partidário com as presenças da esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita. Dizem que estas "classificações" (direita, esquerda , etc) estão ultrapassadas e que as diferenças perderam nitidez. Mas é isto que está em curso. Trata-se de rearrumar o quadro político-partidário à esquerda do espectro. Com ou sem "classificações".

No PT , o movimento de ruptura e debandada de 112 petistas, liderados pelo professor Plínio de Arruda Sampaio Jr., não deverá alterar o quadro de hegemonia do Campo Majoritário no interior do partido. Talvez muito pelo contrário. Talvez venha a estimular maior nitidez do PT na opção pelo espaço da centro-esquerda.

Ainda no PT, a candidatura avulsa do deputado federal Virgílio Guimarães à disputa pela presidência da Câmara Federal, poderá resultar em tentativas de promover um re-equilíbrio de forças regionais no partido, com possível diminuição da força de São Paulo e aumento das forças de Minas Gerais e do Nordeste.

Tanto a saída de quadros de esquerda do partido, quanto a colocação da questão regional, poderão, na verdade dar maior nitidez programática e maior equilíbrio federativo na correlação de forças internas do PT. O que o credenciaria mais para articular o seu projeto de hegemonia política no Brasil, sem rachaduras internas.

Ao ganhar o poder federal pela via institucional e eleitoral, o PT optou pelo jogo da democracia e pela ética da responsabilidade. Este jogo pressupõe a política eleitoral e a costura de alianças para governar. Portanto, por sua própria natureza, é um jogo que é jogado no centro do espectro político, da centro-esquerda para a centro-direita.

É este jogo que afasta o PT das extremidades do espectro político, vale repetir. E que faz a direção do partido compreender que, uma vez no governo, o presidente Lula deixa de ser apenas o líder do PT para tornar-se o presidente de todos os brasileiros, eleito não apenas pelos votos do PT. Este é o ponto. Este é o divisor de águas.

Como dizia na época o sociólogo José Álvaro Moisés, o PT representou a grande novidade histórica da política brasileira nos anos 80, quando foi fundado. Um partido com raízes sociais, fadado a ser um partido de massas.

Tendo caminhado, tendo chegado ao poder federal, o PT agora passa por um processo de mudanças semelhante aos processo vividos pelo Partido Comunista na Itália; pelo Partido Socialista na França; pelo Partido Trabalhista e na Inglaterra; e pelo Partido Socialista na Espanha, por exemplo.

Provavelmente, nas renovações das executivas municipais, estaduais e nacional do PT, a ocorrerem este ano, esta discussão deverá aprofundar-se e o debate interno poderá avançar e amadurecer.

Se isto acontecer, se o PT caminhar no sentido da mudança e da assimilação do seu novo papel e formato, estaremos assistindo a um outra novidade histórica. Desta vez, a novidade será a da (provável) rearrumação do quadro político-partidário brasileiro. Vamos ver.