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'Eu Passarei por Bicanga' (VI)
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Geraldo Hasse
Em 1998, uma reportagem de A Gazeta revelou que a festa carnavalesca de Manguinhos teve início em 1958, quando um grupo de veranistas organizou um bloco de foliões que, após dançar no largo da vila, entrou no mar com suas fantasias de papel crepom. O banho de mar à fantasia virou uma das marcas registradas do carnaval do nosso querido balneário.
Naqueles primeiros tempos, 46 anos atrás, os foliões dançavam ao som da batucada da banda de congo, chefiada por Zé Paranhos, que ganhava a vida dando manutenção e fazendo reforma de barcos de pesca, a primordial atividade da vila. A morte do líder da banda na década de 80 deixou o congo órfão, mas a comunidade não perdeu seu contato com a música.
Na realidade, a desativação da banda de congo local abriu espaço para a turma do samba, que costuma fazer -- mas nem sempre -- batucada nos sábados à tarde no Restaurante Enseada. São eles, os sambistas, os principais animadores do bloco Sanatório Geral, criado em 1982 por Tião Sá, ex-morador do vagão da Ponta dos Fachos (veja numa das próximas crônicas). Outros blocos nascem e morrem nos carnavais do balneário, mas o Sanatório Geral nunca falha.
Enquanto dependia da espontaneidade das pessoas, o desfile dos blocos costumava sair por volta do meio-dia do sábado de carnaval. Pela uma e meia da tarde, todo mundo caía n'água e cada um tomava seu rumo. Mas as coisas mudam e em Manguinhos não foi diferente. A festinha caseira da vila sofreu a interferência de gente alheia ao ambiente ou não sintonizada com o espírito da coisa, sustentada até então apenas pela propaganda boca-a-boca. Na segunda metade da década de 90 deu-se a intromissão de políticos, interessados em aparecer diante da multidão atraída pelas notícias de que o carnaval de Manguinhos era muito animado.
É bom reconhecer também que tal movimentação interessava particularmente aos dois restaurantes que dão ritmo à vila. Quanto mais gente na praça, mais grana no caixa, eis sua lógica. Assim, em 1998, instalou-se pela primeira vez no largo recém-transformado em moderna pracinha-com-amurada* um palanque com axé music em alta voltagem. Estabeleceu-se assim um impasse semelhante àquele da briga na gafieira, conforme o samba de Bezerra da Silva: "Enquanto dura o vai-não vai/quem está fora não entra/ quem está dentro não sai".
Resumo da história: para os recém-chegados foi encantador ver os blocos de mascarados e os palhaços avulsos, uns curtindo o anonimato, outros a notoriedade, todos envolvidos por um clima de festa familiar, formando uma multidão de 200 ou 300 pessoas, apinhadas no largo da vila. Mas para o pessoal de casa, acostumado com o estilo doméstico do carnavalzinho de bairro, foi incômodo o uso abusivo do microfone (e, por extensão, dos alto-falantes) por chatos dispostos a "comandar a folia".
Nos anos seguintes, o exagero na tecnologia sonora descaracterizou a antiga festa, destruindo o que ela tinha de melhor: a originalidade. Mas não estamos aqui para chorar o que se foi e, sim, para procurar o que sobrou do incêndio. Nesse sentido, convido os foliões dos tempos mais antigos para resgatar letra-e-música do Hino do Carnaval de Manguinhos, composto há décadas por alguém que, viajando de carro de Vitória, fazia o primitivo caminho, passando por Bicanga.
"Eu passarei por Bicanga", diz justamente o refrão, lembrando a época em que as praias do sudeste da Serra/norte de Vitória mal começavam a ser frequentadas. Quem anda pela faixa dos 40 anos ainda se lembra.
Nos anos 60, a praia de Camburi era um grande deserto. Raros surfistas se aventuraram até a Praia Mole. Muita gente gostava de fazer piquenique ao redor da lagoa de Carapebus, onde a Polícia Militar de Minas Gerais construiu uma colônia de férias, inaugurando a moda que se espalharia por boa parte do litoral capixaba. Foi efetivamente a "invasão mineira" que inchou Jacaraípe, Nova Almeida, Praia Grande e arredores. Nessa corrida, surpreendentemente, Manguinhos ficou isolada e Bicanga, meio no desvio.
Desde sempre as duas vilas, Manguinhos e Bicanga, são íntimas. Íntimas e distantes, amigas/irmãs. Seus destinos estão ligados por um riozinho de águas escuras, mas sempre houve uma separação determinada pelos hábitos viários. Antigamente quem saía de Vitória para Manguinhos tinha que dobrar à direita no planalto de Carapina e era inevitável passar por Bicanga, conforme diz o samba-hino. Agora, ao contrário, a maioria, principalmente os passageiros de ônibus, faz o caminho inverso, passando em Manguinhos para chegar em Bicanga.
Para quem mora em Manguinhos é hábito caminhar pelo menos até o rio Bicanga. Alguns vão até a ponta de Bicanga onde existem umas castanheiras. Outros chegam até Carapebus, onde se preserva uma enseada muito bonita. E os mais corajosos se aproximam dos paredões da Praia Mole. E há também quem de Bicanga faça o trajeto contrário, caminhando até as pedras da Chaleirinha ou o largo dos barcos.
Há outras semelhanças entre os dois balneários. Tal como em Manguinhos, em Bicanga há clubes de campo: da CEF, dos Bandes, dos Dentistas e dos Oficiais da PM. Mas Bicanga tem uma história própria, completamente diferente de Manguinhos. Quer saber? Nada a ver com o desbravador das selvas do rio Doce...
No governo de Christiano Dias Lopes (1967-1971), as autoridades houveram por bem transferir a zona do meretrício da região do cais de Vitória para um bairro novo na Serra. Assim nasceu Novo Horizonte, no planalto, entre Carapina e Carapebus. Sabe como é, o porto de Tubarão estava começando a operar e os marinheiros não podiam ficar sem opção de divertimento. Então, em vez de permitir que fossem zonear na banda do cais de Vitória, as autoridades fizeram os navegantes procurar as boates improvisadas em Novo Horizonte.
O novo bairro cresceu e em torno dele surgiram diversos loteamentos. O mais organizado é a Cidade Continental. Ela tem cinco setores, cada um com o nome de um continente. O último foi Oceania, 350 casas visando o pessoal da Vale do Rio Doce. Muita gente comprou, mas logo depois começaram as demissões e o plano original desandou. Hoje Oceania é de terceiros, que compraram suas casas na bacia das almas. Você acredita que ali em 1999 se podia comprar uma casa de 47 metros quadrados por 5 mil reais?
É certo que ainda moram por ali muitas pessoas que ajudaram a Vale a se tornar essa potência mundial, mas em Oceania quem mora é...(soldados, marinheiros, operários, vendedores ambulantes, cobradores, motoristas, garçons...) o povo. Nos fins de semana e feriados, esse pessoal frequenta a praia de Bicanga, que tem esse nome por causa das pedras ali submersas. O casario construído no balneário foi influenciado pela dinâmica social de Novo Horizonte e arredores -- nada a ver com o estilo vigente em Manguinhos. Em Bicanga os lotes são menores e as construções, menos abertas. Aqui os moradores parecem preferir fechar-se em casa. Costumes ditados pelo tempo, o vento, a maré, a moral e a lua.
* A implantação da pracinha foi mal recebida pelos conservacionistas, não apenas por causa da derrubada de algumas castanheiras, mas porque os responsáveis pela obra tiveram o desplante de fincar ali uma placa com seus nomes.
(CONTINUA)
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